Acreditar no confronto entre o Bem e o Mal é simplificar demais a realidade. Eu não creio que o mal exista absolutamente e nem tampouco o bem na nossa dimensão humana de manifestação. Cada um de nós apresenta aspectos pendentes ao bem e outros ao mal. A questão é saber o que determina quem é bom e quem é mau, e disso vai depender fundamentalmente a qualificação que fazemos de nós mesmos e de outrem. O que é bom para um é mau para o outro e vice-versa.
Hoje o Brasil se apresenta como espelho da sua população com acesso aos meios de comunicação de massa e com voz ativa nas mídias sociais de relacionamento. Dividida entre coxinhas e petralhas, a população se expressa postando-se cada qual no lado que pensa ser o do bem e que automaticamente a qualifica como pessoa boa, pessoa do bem, e, obviamente, aquele diametralmente oposto é a encarnação do mal, pessoa má, pessoa do mal.
Eu mesma, tenho clara em mente a minha posição, mas ela não impede que eu tenha amigos nos dois grupos, tenho simpatia, amizade e admiração por pessoas de ambos os lados. Cada uma tem uma história própria, particular e original, demonstrada por atos e ideias proferidas. Eu, a partir da cosmovisão assumida por mim, avalio suas ações e pensamentos como bons ou maus. Assim, aqueles que concordam com minha posição estão ok e os que não são criticados negativamente. Porém, isso não pode consistir na avaliação da pessoa como um todo. No máximo posso dizer que não concordo com fulano neste ponto mas em outros posso estar ao seu lado e até mesmo tê-lo como um exemplo para mim.
Há pessoas que amo profundamente e às quais condeno atos e palavras, e outras que não posso nem ao menos ver, o tal caso do "meu santo não bate com os delas", pelas quais tenho profunda admiração em virtude de suas condutas.
Não é de hoje que penso assim, e nem ao menos é de sempre, foi uma construção paulatina com avanços e recuos, com momentos de mais autenticidade e também de menos. Uma posição que me alcunhou algumas vezes de Pollyanna, sabonete e até Márcia a simpática, num sentido jocoso é claro. Mas eu não ligo não, não o faço para ser boazinha, é apenas a minha crença. Vejo em mim defeitos escabrosos e atitudes sublimes; todo dia travo uma luta em minha consciência para melhorar meus pensamentos e tentar, dentro da autenticidade, tratar as diferentes pessoas de maneira mais justa possível. Não precisa viver de beijinhos e abraços com os desafetos, mas é fundamental avaliá-los com a melhor das intenções e desassombro. Melhor mesmo é construir critérios claros do que é bom e do que é mau e assim analisar apenas os atos particulares e não generalizar para a qualificação da pessoa.
Assim, nem coxinhas nem petralhas, há apenas pessoas que se postam em posições diferentes. Ambos os lados devem se respeitar e divulgar suas convicções de maneira civilizada e aberta ao diálogo. Lembro sempre de uma fala de Paulo Freire, ouvida em uma palestra ou lida em um de seus livros, já não me recordo a fonte, nela ele disse que tinha amigos pessoais que eram inimigos políticos, os quais frequentavam sua casa e privavam de sua intimidade. Também do mesmo autor, há uma outra fala sobre a importância de sabermos contra quem e a favor de quem nós lutamos. Penso sobre a necessidade de termos argumentos claros e fundamentados sobre nossa posição e, ao mesmo tempo, cuidar da maneira pela qual devemos estabelecer nossa relação com o outro pela dialogicidade, ou seja, um diálogo que compreenda uma dialética discursiva, baseada em fatos concebidos pela apreensão do mundo por cada um dos interlocutores. Uma dialogicidade de auscultação recíproca.
Cansa a beleza tanto ódio, desrespeito às pessoas e nomeações qualificativas de baixo calão. Incitação à violências, promessas de desagravos futuros, figuras apocalípticas para dramatizar ainda mais o cenário, muito mais vinculadas ao subcérebro abdominal do que à capacidade cognitiva superior. É o medo da perda de status, de popularidade, de privilégios, de domínio e de poder que inflama as pessoas.
As paixões nos traem e nos fazem ficar reféns de nossas posições antigas, por puro medo de perder uma identidade construída arduamente ao longo da vida. Usando de instrumentos de reflexão pessoal
cada um pode analisar friamente sua própria conduta e os pensamentos que a fundamentam. Podemos claramente identificar nossos pontos positivos e negativos, e assim também com relação aos outros. Poderemos rever nossas antigas crenças, avaliar sua efetividade atual e assumir erros e corrigir condutas com vistas ao nosso aperfeiçoamento consciencial.
A questão fundamental agora é almejar um Brasil com pessoas mais autênticas, mais disponíveis para autoavaliações pessoais e intransferíveis, que assumam seus erros e empreendam caminhos de redirecionamento de ideais mais solidários e construtivos com vistas ao Bem Comum.
Qualquer grupo que se mantenha fora ou dentro da máquina do poder terá os mesmos deveres e direitos, deverá ser responsabilizado por suas ações e deverá ser respeitado nos seus encargos. E o cidadão que não é político profissional, deverá exercer sua politicidade todos os dias, não apenas em momentos cruciais, e ainda mais, deverá corrigir em sua própria conduta aquilo que denuncia em outrem. Visão ingênua da política para alguns, mas não importa, se não é para pensar grande então é chafurdar na mediocridade de viver segundo um pragmatismo brutal (não filosófico, é claro) ou de acordo com uma vulgarização leviana do maquiavélico "os fins justificam os meios". Nada disso. Acredito na possibilidade de um viver pautado pelo Bem Comum. Fora do que é correto vale tudo, e o vale tudo não serve nem para coxinhas nem para petralhas, nem para pessoa alguma. Todos nós somos muito melhores do que essa banalização da moral política.
Enfim, de posse da tarefa da construção contínua da humanidade em nós, também auxiliaremos os outros a se humanizarem. Toda denúncia é o anúncio de uma posição, de um ideal, de um desejo. Só espero que assim seja sem desqualificação de pessoas e sem considerações maniqueístas.
sabato 16 aprile 2016
mercoledì 15 luglio 2015
Terapeutas como interlocutores para o crescimento pessoal
Haver companhia para uma interlocução inteligente, quando a gente está preparada para falar e ouvir com abertura de espírito, é algo de grande utilidade para avançarmos no nosso processo de crescimento pessoal, na busca de possíveis soluções para problemas íntimos e para o vislumbre de novas perspectivas para o projeto de vida.
Nossos interlocutores profissionais, como terapeutas e mestres, são companheiros que vão ao nosso lado, em determinadas etapas do caminho, nos auxiliando a observar a paisagem, a destacar aspectos ainda não identificados por nós, reforçando a observação dos fenômenos psicológicos constituídos em nós por nós mesmos, ao longo do percurso de vida.
Sempre fui incentivada a buscar auxílio psicológico mas apenas próximo aos 40 anos consegui me encaminhar para uma primeira experiência. Tive o cuidado de escolher um profissional reconhecido por sua competência e tive contato com textos escritos por ele para me certificar se sua abordagem seria adequada à minha concepção filosófica da vida. Não deu certo, ele estava sempre cansado, eu sem um objetivo claro e sempre me esquivando das sessões e, principalmente, das investiduras argumentativas dele. Na verdade eu sempre evitei um contato com um psicólogo porque temia profundamente que alguém vislumbrasse a persona constituída por mim em contraste com a realidade íntima do ser que sou, ou melhor, que eu pensava que era.
Levei ainda mais 11 anos para que novamente procurasse outro profissional. Mas a situação era outra... eu mais madura, à beira dos 50 anos, já num caminho de enfrentamento dos demônios criados intimamente, estava realmente empenhada em meu aprimoramento humano. Ao assistir palestras no youtube, encontrei alguém com características de pensamento e de cosmovisão que pudessem constituir um ambiente de diálogo compreensivo. Dessa vez, fui com um objetivo pontual e consegui, com o auxílio do terapeuta, analisar mais profundamente a problemática apresentada e construir instrumentos pessoais de superação, tudo por meio de diálogos, leituras, técnicas energéticas, tratamentos auxiliares com outros terapeutas, xamanismo, florais e tentativas de TRVP, terapia regressiva de vivências passadas. Realmente um tratamento que considerei de altas qualidade e efetividade.
Com certeza, hoje reavaliando, penso que ainda deixei muito entulho para ser remexido e coisas que, a partir daquela experiencia terapêutica, hoje emergem como uma consequência da ampliação da autoconsciência.
Desde criança tive a constante atividade, exercida com algumas amigas, de análise e autoanálise, mas hoje, pensando bem, creio que eram discursos de circunvoluções muito autoindulgentes, umas para com as outras. No fundo havia o medo inconsciente de conhecermos aspectos de nossas personalidades e assim ficávamos como a boiar na beira da praia, sem jamais mergulhar.
O mergulho no profundo de nós mesmos só é possível quando nos propusermos a desnudar publicamente nosso ser. Dizer a nós mesmos e aos outros quem já pensamos que somos. Reconhecer a humanidade em nós é entender que somos seres em processo, nos constituindo e reconstituindo dia a dia, etapa por etapa, no fluxo constante da vida que se traveste em corpos e identidades diferentes em tempos e espaços distantes. Do oceano profundo de nós mesmos emergem objetos desconhecidos e inclassificados, carentes de uma atenção analítica.
Um mergulho necessário que não pode ser empreendido sozinho; penso fundamental o acompanhamento de um terapeuta, em determinadas etapas de reflexão mais profunda. Mas, na impossibilidade do apoio especializado, temos a premente necessidade de colocar em ação nossa reflexão sistemática acerca dos nossos pensamentos, palavras e ações, com o fito de superação e estabelecimento de novas metas de conduta consciente.
Podemos também nos servir dos pensamentos de escritores, artistas, professores, amigos e parentes como mote para atentarmos mais profundamente para os conteúdos que emergem para nossa análise.
Mas, com certeza, devemos permitir a manifestação da sensibilidade mais acurada para resgatarmos os ecos dos contatos transdimensionais que nos permitem acessar, ainda que palidamente, o mistério da nossa própria identidade espiritual e que imprime as mazelas que resguardamos no inconsciente pessoal. Nossas projeções astrais e mentais, bem como os sonhos e os vislumbres diários de outros seres e dimensões nos fornecem conteúdos significativos.
Podemos registrar por escrito ou oralmente nossas reflexões, distinguindo as descrições fenomênicas das interpretações que empreendemos como tentativas de compreensão.
Entendo que somos criaturas imortais que se constituem continuamente nos evos e que, mergulhadas na materialidade mais densa, temos a oportunidade de entrar em contato mais direto com o resultado das experiências imemoriais. O nosso escopo é o desenvolvimento máximo das capacidades de autoexpressão de vida criada e cocriadora em simbiose homeostática com os demais seres dos universos... estamos indo "ao infinito e além" como disse Buzz Lightyear em Toy Story.
Mas, para o reconhecimento de nós mesmos em nossas potencialidades de crescimento, é sempre bom ter um samaritano à beira do caminho a nos oferecer a água revigorante do poço de nosso imo. A associação solidária é característica fundamental da vida em todas as suas expressões, e, no nosso caso, para o nosso crescimento pessoal, ter a interlocuãao de terapeutas, profissionais ou não, é uma dádiva.
Nossos interlocutores profissionais, como terapeutas e mestres, são companheiros que vão ao nosso lado, em determinadas etapas do caminho, nos auxiliando a observar a paisagem, a destacar aspectos ainda não identificados por nós, reforçando a observação dos fenômenos psicológicos constituídos em nós por nós mesmos, ao longo do percurso de vida.
Sempre fui incentivada a buscar auxílio psicológico mas apenas próximo aos 40 anos consegui me encaminhar para uma primeira experiência. Tive o cuidado de escolher um profissional reconhecido por sua competência e tive contato com textos escritos por ele para me certificar se sua abordagem seria adequada à minha concepção filosófica da vida. Não deu certo, ele estava sempre cansado, eu sem um objetivo claro e sempre me esquivando das sessões e, principalmente, das investiduras argumentativas dele. Na verdade eu sempre evitei um contato com um psicólogo porque temia profundamente que alguém vislumbrasse a persona constituída por mim em contraste com a realidade íntima do ser que sou, ou melhor, que eu pensava que era.
Levei ainda mais 11 anos para que novamente procurasse outro profissional. Mas a situação era outra... eu mais madura, à beira dos 50 anos, já num caminho de enfrentamento dos demônios criados intimamente, estava realmente empenhada em meu aprimoramento humano. Ao assistir palestras no youtube, encontrei alguém com características de pensamento e de cosmovisão que pudessem constituir um ambiente de diálogo compreensivo. Dessa vez, fui com um objetivo pontual e consegui, com o auxílio do terapeuta, analisar mais profundamente a problemática apresentada e construir instrumentos pessoais de superação, tudo por meio de diálogos, leituras, técnicas energéticas, tratamentos auxiliares com outros terapeutas, xamanismo, florais e tentativas de TRVP, terapia regressiva de vivências passadas. Realmente um tratamento que considerei de altas qualidade e efetividade.
Com certeza, hoje reavaliando, penso que ainda deixei muito entulho para ser remexido e coisas que, a partir daquela experiencia terapêutica, hoje emergem como uma consequência da ampliação da autoconsciência.
Desde criança tive a constante atividade, exercida com algumas amigas, de análise e autoanálise, mas hoje, pensando bem, creio que eram discursos de circunvoluções muito autoindulgentes, umas para com as outras. No fundo havia o medo inconsciente de conhecermos aspectos de nossas personalidades e assim ficávamos como a boiar na beira da praia, sem jamais mergulhar.
O mergulho no profundo de nós mesmos só é possível quando nos propusermos a desnudar publicamente nosso ser. Dizer a nós mesmos e aos outros quem já pensamos que somos. Reconhecer a humanidade em nós é entender que somos seres em processo, nos constituindo e reconstituindo dia a dia, etapa por etapa, no fluxo constante da vida que se traveste em corpos e identidades diferentes em tempos e espaços distantes. Do oceano profundo de nós mesmos emergem objetos desconhecidos e inclassificados, carentes de uma atenção analítica.
Um mergulho necessário que não pode ser empreendido sozinho; penso fundamental o acompanhamento de um terapeuta, em determinadas etapas de reflexão mais profunda. Mas, na impossibilidade do apoio especializado, temos a premente necessidade de colocar em ação nossa reflexão sistemática acerca dos nossos pensamentos, palavras e ações, com o fito de superação e estabelecimento de novas metas de conduta consciente.
Podemos também nos servir dos pensamentos de escritores, artistas, professores, amigos e parentes como mote para atentarmos mais profundamente para os conteúdos que emergem para nossa análise.
Mas, com certeza, devemos permitir a manifestação da sensibilidade mais acurada para resgatarmos os ecos dos contatos transdimensionais que nos permitem acessar, ainda que palidamente, o mistério da nossa própria identidade espiritual e que imprime as mazelas que resguardamos no inconsciente pessoal. Nossas projeções astrais e mentais, bem como os sonhos e os vislumbres diários de outros seres e dimensões nos fornecem conteúdos significativos.
Podemos registrar por escrito ou oralmente nossas reflexões, distinguindo as descrições fenomênicas das interpretações que empreendemos como tentativas de compreensão.
Entendo que somos criaturas imortais que se constituem continuamente nos evos e que, mergulhadas na materialidade mais densa, temos a oportunidade de entrar em contato mais direto com o resultado das experiências imemoriais. O nosso escopo é o desenvolvimento máximo das capacidades de autoexpressão de vida criada e cocriadora em simbiose homeostática com os demais seres dos universos... estamos indo "ao infinito e além" como disse Buzz Lightyear em Toy Story.
Mas, para o reconhecimento de nós mesmos em nossas potencialidades de crescimento, é sempre bom ter um samaritano à beira do caminho a nos oferecer a água revigorante do poço de nosso imo. A associação solidária é característica fundamental da vida em todas as suas expressões, e, no nosso caso, para o nosso crescimento pessoal, ter a interlocuãao de terapeutas, profissionais ou não, é uma dádiva.
sabato 10 gennaio 2015
Tempos interessantes...
Em dezembro passado, assistindo ao programa "Leão Lobo visita" encontrei uma ideia motivadora para reflexão. O Leão Lobo entrevistava o cantor e compositor Leoni (Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=miIid-TPTp8>) e, na ocasião, o entrevistado comentava a frase, atribuída por ele a Confúcio, "que você viva tempos interessantes", desejando que todos nós possamos viver tais tempos interessantes. E ontem, acompanhando o curso dos acontecimentos gerados pelo atentado terrorista ao semanário satírico "Charlie Hebdo", fiquei pensando que era o momento de lançar mão da frase citada por Leoni.
Estou vivendo na Europa, no norte da Itália, desde 2011, e considero que ainda conheço pouco a cultura, a política e a consciência coletiva social, mas alguns fragmentos da realidade eu entendo que já vislumbro. Sei que ao manifestarmos uma opinião estamos sujeitos a fazer apontamentos superficiais, generalizantes e no limite distorcidos, porém é um exercício a que não posso me furtar, como cidadã do mundo, em virtude da gravidade da situação.
Nossas capacidades morais e intelectuais são postas à prova e reconceituadas à força pelas circunstâncias emergenciais, pelas contingências que nos afrontam sem pedir licença, daí o interesse de Leoni pelos "tempos interessantes". No marasmo dos dias equilibrados e harmônicos repetimos ad aeternum as nossas virtudes constituídas e aplicadas em situações similares; não progredimos, não realizamos novas empreitadas evolucionárias; não desenvolvemos novas habilidades e competências. Nos tempos interessantes é que nos movimentamos em expansão de nós mesmos, de reencontro com os outros, que redimensionamos nossa tarefa no mundo e mergulhamos nos escaninhos de nossa consciência existencial. Os tempos interessantes nos apresentam graves conflitos e dificuldades imensas para veicularmos em situações inusitadas, principalmente se nos limitamos aos parcos recursos de nossas ideias cristalizadas, de nosso modus operandi caquético.
Reconhecer e encarar os chamados "tempos interessantes" é já uma sinalização de nossa acuidade. Há pessoas que vivem tais tempos sem se aperceberem da oportunidade ensejada para se reconhecerem impotentes, e dali, retirarem forças resilientes para sobrevivência pessoal e coletiva de um processo civilizatório que tenha coragem de se embrenhar por novas veredas. Há pessoas que não percebem os tempos interessantes. E há aqueles que os percebem mas repetem velhos jargões e velhas ideias que limitam a compreensão do fenômeno e, com certeza, se encaminham para velhos erros históricos. Muitos já pedem a pena de morte aos terroristas, como Marie Le Pen, a prefeita de Paris, representante da extrema direita xenófoba européia. Além é claro dos que, à voz miúda, desejam incorporar o "Capitão Nascimento" para erradicar o "mal islâmico da Europa".
Hoje se apresenta à Europa, se não ao mundo todo já globalizado, em termos econômicos, a partilha das misérias e a permanência dos guetos de privilégios. Depois do intenso eurocentrismo sociantropológico e do imperialismo econômico americano, pouco se vislumbra da riqueza proveniente das diferenças, e se faz ouvidos moucos para os lamentos e as necessidades dos historicamente espoliados.
Posso compreender o atentado terrorista mas não posso aceitar justificativas para ele. Uma coisa é o reconhecimento da situação de polaridade instituída entre o mundo islâmico e o mundo ocidental e outra é o assassinato de pessoas que exerciam sua liberdade de expressão. Agora não aceitar o terrorismo e denunciar as atrocidades por ele perpetradas, não implica em que eu renegue o estado de direito ocidentalmente constituído, ainda que visceralmente comprometido com um modelo capitalista-imperialista-eurocêntrico desrespeitoso com os deserdados da Terra. Há uma conquista humana em possuirmos um sistema jurídico que intermedeia o ato da injustiça e analisa causas e circunstâncias antes de aplicar determinadas penas. A pena de morte em si já é um ato bárbaro, mais ainda sendo imediata e sem julgamentos, constituindo-se numa arbitrariedade assustadora, como por exemplo, o extermínio de Osama bin Laden e Sadham Hussein pelo governo norte-americano, o qual coloca a sociedade ocidental em paridade com as atrocidades do terrorismo islâmico. Os atos das polícias que exterminam os prováveis culpados sem julgamento, colocam em xeque todo o sistema de crenças e valores democráticos bem como tiram a segurança de todos os cidadãos, fazendo de qualquer circunstância uma situação de exceção, como no caso da morte dos terroristas.
Não se pode resolver uma situação gravíssima como essa recorrendo aos recursos do "olho por olho, dente por dente". Preciso se faz instalar um diálogo humanamente despojado ainda que profundamente marcado pela dor de ambas as partes.
Preocupa-me a ligeireza e a irresponsabilidade com que se levantam vozes aqui na Itália e em várias partes da Europa, especialmente na França, com relação ao acirramento dos preconceitos, das discriminações, dos desejos de alijamento e extermínio, os quais impedem qualquer ato de racionalidade que considere a humanidade de todos os envolvidos. Termos como "essa gente estranha", e "esses invasores" demonstram uma análise da profundidade de um pires.
O eurocentrismo é uma cosmovisão não transcendida e nem ao menos consegue reconhecer as bases econômicas da criação desse caos histórico agora despejado às portas da Europa, a qual necessita urgentemente aprender a dialogar e não a se limitar à "caridade", originada num mal estar coletivo. Ambiguamente dá-se a esmola e o lavoro nero ou mesmo regulamentado, mas no vocabulário diário há sempre um chiste preconceituoso e vingativo de quem se sente prejudicado pela existência do outro.
Há que se exercitar a alteridade, de ver-se no outro, de se compreender quem é o outro, de encontrar as similaridades, de buscar as causas mútuas que originaram a ambos. As intervenções européia milenar e norte-americana centenária, nas sociedades africanas e árabes, deslocaram propósitos particulares políticos, econômicos e culturais de povos nômades, para um contexto global de modelo ocidental. Por motivações de exploração econômica, acionaram-se armas ideológicas de grande profundidade, as quais expulsaram povos e indivíduos de suas próprias culturas e ensejaram a constituição de uma miscelânia pasteurizada sem identidade clara que se alcunha de "terrorismo islâmico" de caráter histórico vingativo, o qual faz justiça com os próprios corpos. O terrorismo islâmico é renegado por várias autoridades religiosas do mundo islâmico, como Dalil Boubakeur, presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano e Imã da Grande Mesquita de Paris, o qual nomeou o evento de "ato bárbaro"; e também assim, penso eu, devem agir os líderes europeus e norte-americanos, não vinculando a cultura islâmica ao terrorismo.
São esses os "tempos interessantes" que creio vivemos; apesar de todo o horror que me causa, penso que é um grande momento para os processos civilizatórios europeu e islâmico se reverem, buscarem constituir uma nova história que não recorra aos erros do auto extermínio do passado.
Paz e Bem aos povos islâmicos e europeus!
Estou vivendo na Europa, no norte da Itália, desde 2011, e considero que ainda conheço pouco a cultura, a política e a consciência coletiva social, mas alguns fragmentos da realidade eu entendo que já vislumbro. Sei que ao manifestarmos uma opinião estamos sujeitos a fazer apontamentos superficiais, generalizantes e no limite distorcidos, porém é um exercício a que não posso me furtar, como cidadã do mundo, em virtude da gravidade da situação.
Nossas capacidades morais e intelectuais são postas à prova e reconceituadas à força pelas circunstâncias emergenciais, pelas contingências que nos afrontam sem pedir licença, daí o interesse de Leoni pelos "tempos interessantes". No marasmo dos dias equilibrados e harmônicos repetimos ad aeternum as nossas virtudes constituídas e aplicadas em situações similares; não progredimos, não realizamos novas empreitadas evolucionárias; não desenvolvemos novas habilidades e competências. Nos tempos interessantes é que nos movimentamos em expansão de nós mesmos, de reencontro com os outros, que redimensionamos nossa tarefa no mundo e mergulhamos nos escaninhos de nossa consciência existencial. Os tempos interessantes nos apresentam graves conflitos e dificuldades imensas para veicularmos em situações inusitadas, principalmente se nos limitamos aos parcos recursos de nossas ideias cristalizadas, de nosso modus operandi caquético.
Reconhecer e encarar os chamados "tempos interessantes" é já uma sinalização de nossa acuidade. Há pessoas que vivem tais tempos sem se aperceberem da oportunidade ensejada para se reconhecerem impotentes, e dali, retirarem forças resilientes para sobrevivência pessoal e coletiva de um processo civilizatório que tenha coragem de se embrenhar por novas veredas. Há pessoas que não percebem os tempos interessantes. E há aqueles que os percebem mas repetem velhos jargões e velhas ideias que limitam a compreensão do fenômeno e, com certeza, se encaminham para velhos erros históricos. Muitos já pedem a pena de morte aos terroristas, como Marie Le Pen, a prefeita de Paris, representante da extrema direita xenófoba européia. Além é claro dos que, à voz miúda, desejam incorporar o "Capitão Nascimento" para erradicar o "mal islâmico da Europa".
Hoje se apresenta à Europa, se não ao mundo todo já globalizado, em termos econômicos, a partilha das misérias e a permanência dos guetos de privilégios. Depois do intenso eurocentrismo sociantropológico e do imperialismo econômico americano, pouco se vislumbra da riqueza proveniente das diferenças, e se faz ouvidos moucos para os lamentos e as necessidades dos historicamente espoliados.
Posso compreender o atentado terrorista mas não posso aceitar justificativas para ele. Uma coisa é o reconhecimento da situação de polaridade instituída entre o mundo islâmico e o mundo ocidental e outra é o assassinato de pessoas que exerciam sua liberdade de expressão. Agora não aceitar o terrorismo e denunciar as atrocidades por ele perpetradas, não implica em que eu renegue o estado de direito ocidentalmente constituído, ainda que visceralmente comprometido com um modelo capitalista-imperialista-eurocêntrico desrespeitoso com os deserdados da Terra. Há uma conquista humana em possuirmos um sistema jurídico que intermedeia o ato da injustiça e analisa causas e circunstâncias antes de aplicar determinadas penas. A pena de morte em si já é um ato bárbaro, mais ainda sendo imediata e sem julgamentos, constituindo-se numa arbitrariedade assustadora, como por exemplo, o extermínio de Osama bin Laden e Sadham Hussein pelo governo norte-americano, o qual coloca a sociedade ocidental em paridade com as atrocidades do terrorismo islâmico. Os atos das polícias que exterminam os prováveis culpados sem julgamento, colocam em xeque todo o sistema de crenças e valores democráticos bem como tiram a segurança de todos os cidadãos, fazendo de qualquer circunstância uma situação de exceção, como no caso da morte dos terroristas.
Não se pode resolver uma situação gravíssima como essa recorrendo aos recursos do "olho por olho, dente por dente". Preciso se faz instalar um diálogo humanamente despojado ainda que profundamente marcado pela dor de ambas as partes.
Preocupa-me a ligeireza e a irresponsabilidade com que se levantam vozes aqui na Itália e em várias partes da Europa, especialmente na França, com relação ao acirramento dos preconceitos, das discriminações, dos desejos de alijamento e extermínio, os quais impedem qualquer ato de racionalidade que considere a humanidade de todos os envolvidos. Termos como "essa gente estranha", e "esses invasores" demonstram uma análise da profundidade de um pires.
O eurocentrismo é uma cosmovisão não transcendida e nem ao menos consegue reconhecer as bases econômicas da criação desse caos histórico agora despejado às portas da Europa, a qual necessita urgentemente aprender a dialogar e não a se limitar à "caridade", originada num mal estar coletivo. Ambiguamente dá-se a esmola e o lavoro nero ou mesmo regulamentado, mas no vocabulário diário há sempre um chiste preconceituoso e vingativo de quem se sente prejudicado pela existência do outro.
Há que se exercitar a alteridade, de ver-se no outro, de se compreender quem é o outro, de encontrar as similaridades, de buscar as causas mútuas que originaram a ambos. As intervenções européia milenar e norte-americana centenária, nas sociedades africanas e árabes, deslocaram propósitos particulares políticos, econômicos e culturais de povos nômades, para um contexto global de modelo ocidental. Por motivações de exploração econômica, acionaram-se armas ideológicas de grande profundidade, as quais expulsaram povos e indivíduos de suas próprias culturas e ensejaram a constituição de uma miscelânia pasteurizada sem identidade clara que se alcunha de "terrorismo islâmico" de caráter histórico vingativo, o qual faz justiça com os próprios corpos. O terrorismo islâmico é renegado por várias autoridades religiosas do mundo islâmico, como Dalil Boubakeur, presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano e Imã da Grande Mesquita de Paris, o qual nomeou o evento de "ato bárbaro"; e também assim, penso eu, devem agir os líderes europeus e norte-americanos, não vinculando a cultura islâmica ao terrorismo.
São esses os "tempos interessantes" que creio vivemos; apesar de todo o horror que me causa, penso que é um grande momento para os processos civilizatórios europeu e islâmico se reverem, buscarem constituir uma nova história que não recorra aos erros do auto extermínio do passado.
Paz e Bem aos povos islâmicos e europeus!
mercoledì 5 novembre 2014
Um lugar luminoso para onde voltar
Ter a mente descontrolada é como guiar um carro em alta velocidade na estrada sem haver carta de habilitação, sem ter experiência prática e sem direção predefinida.
Pensamos de maneira natural achando isso a coisa mais normal do mundo, sem nos darmos conta de que os pensamentos que emitimos são pensados a partir de uma série de condicionamentos constituídos na resolução pregressa de problemas, seja na presente experiência dimensional ou em outras já vividas.
As formas e os conteúdos do pensar foram construídos em situações datadas e dentro de uma percepção limitada à nossa condição evolutiva de outrora. Porém, essas formas e conteúdos do pensar acabaram por constituir um padrão que nos escraviza, e se não estabelecermos um programa sistemático de questionar não apenas as ideias alheias, mas principalmente as nossas, não teremos a mínima condição de estabelecer uma ação crítica sobre o próprio pensar.
Estudar as crenças e valores que norteiam nossos pensamentos com criticidade e aporte de teorias oriundas de variadas fontes é adquirir a tal carta de habilitação; aplicar tais conhecimentos novos na análise das próprias ações norteadas pelos pensares é fazer o autoexame dos próprios pensamentos, é desenvolver a experiência prática no exercício de um pensar inteligentemente acionado, e não naturalmente mecanizado. A direção predefinida é o início, o meio e o fim... só quando nos damos conta do caos estabelecido no nosso pensar é que percebemos que vamos ao sabor das ondas, que estamos à mercê das circunstâncias; só aí é que nos percebemos sem direção; e no caminho de busca por entender melhor as formas e o conteúdo do nosso pensar é que vamos constituindo a direção, que a vamos escolhendo, ou melhor, talvez, é aí que a direção vai se desvelando como uma contradição, um destino escolhido, quase como uma verdade metafísica que só se revela na profunda experiência do mergulho do ser no fazer no mundo, na existência terrena.
Ao constituirmos um novo pensar acabamos por ter domínio de nossas próprias experiências e isso proporciona que a direção se revele nas relações que estabelecemos com nós próprios, com os outros, com o mundo, enfim, com a Vida.
No caos reconhecido encontraremos as sementes da ordem do pensar, não uma ordem limitadora mas um ordenar de liberação, um domínio de instrumentos inimaginados que nos permitam novas expressões sob novas crenças e novos valores.
Nao creio que a aquisição de um pensar mais consciente seja uma conquista perene e manifestada diuturnamente; creio no desejo de sobrevivência das velhas formas e dos velhos conteúdos que nos espreitam como seres animados a nos torturarem com promessas de sofrimentos, de culpas, de traumas, diminuindo a força da mudança em virtude do orgulho ferido, de um ego que urla na jaula do individualismo e da supremacia do egoísmo. Essas horas das dúvidas e dos inconformismos com a diferença são os estertores dos velhos pensares que precisamos, não matar, mas transmutar, fazer a alquimia do passado, aproveitando as antigas substâncias para a constituição de novos elementos mais adequados às novas formas e conteúdos do pensar.
A resposta mais adequada a esse embate do novo e do velho dentro do nosso pensar, ao meu ver, só pode ser dada pelo Amor, não falo dos sentimentos baratos que nomeamos amor, mas aquele senso de pertencimento no Todo, aquela empatia súbita com a alegria e as dores humanas e não humanas. O Amor é aquele lugar luminoso para onde voltar das refregas, das lutas, dos embates mentais que nos dilaceram, nos escravizam e nos torturam; o Amor é a metafísica última na sua única verdade do encontro do que há de Um em cada um e em todos ao mesmo tempo; o Amor é a única coisa que nos une, que nos pode unir, que nos pode iluminar e demonstrar a necessidade de novos pensares que sustentem a aproximação e a identificação na diferença.
Ter velhos pensamentos em confronto com novas realidades é que nos fazem sofrer; sinal de que precisamos rever as ideias para termos novas percepções sobre a realidade, e daí constituirmos novas crenças. Ao enfrentarmos com decisão o domínio de nosso pensar nos asseguramos de que temos um lugar luminoso para onde voltar: o olhar ansioso por atenção; as mãos abertas em súplica; os braços estendidos para o carinho, seja em qual dimensão for e com quaisquer que sejam os seres, sencientes ou não. Para esses lugares é que vamos quando nos despimos do pensar preconceituoso, preconcebido.
Rever nossos pensamentos só pode nos enviar para um futuro-presente de Luz na comunhão dos diferentes que se fazem iguais na limpidez sem preconcepções. Rever conscientemente os pensamentos e suas formas é ter uma direção luminosa que só valide pensamentos que nos façam mais irmãos .
venerdì 26 settembre 2014
Extinção do currículo disciplinar
A motivação para a escritura do presente texto proveio da leitura de um post de um brilhante ex-aluno no facebook ( https://www.facebook.com/rafael.delimaoliveira/posts/985044434855081?comment_id=985633368129521&offset=0&total_comments=8¬if_t=feed_comment_reply ) e a provocação de uma amiga e ex-aluna para que eu me manifestasse.
O texto da postagem discute a reformulação do currículo escolar brasileiro. O autor discorre de maneira crítica e profunda, e, entre suas várias colocações se manifesta favorável a um currículo não disciplinar, nominalmente se referindo à extinção das disciplinas filosofia e sociologia da grade do Ensino Médio.
Eu tenho fortes vínculos com a concepção deweyana de educação, e, portanto, creio na eficácia de um currículo baseado em experiências nascidas de projetos construídos por alunos com a orientação de professores. Creio firmemente que as experiências da Escola da Ponte e da Amorim Lima, bem como da Escola Laboratório de John Dewey, atestam a possibilidade real de se produzir educação de maneira legítima e firmemente calcada no interesse particular e associado de pessoas inteligentes que interagem no ato de ensinar-aprender, independente da existência de um currículo disciplinar.
O currículo escolar brasileiro é imenso em termos de disciplinas e de conteúdos, com privilégios em carga horária para algumas delas, além de haver uma forte direção legal para a orientação dos objetivos, habilidades e competências descritos como ideais para a formação do cidadão e o domínio dos conhecimentos universais, notadamente exagerados na expectativa que acaba sendo um ideal com pouca capacidade de alumiar o trabalho docente na realidade da sala de aula, seja pública ou privada.
Por força desse post eu me entreguei a reminiscências escolares e, de verdade, procurei elencar o que aprendi na escola. Minha educação formal proporcionou muito conhecimento interpessoal, aprendi muito acerca das relações humanas; a escola permitiu que eu conhecesse pessoas interessantíssimas que me apresentaram músicas e músicos, leituras inquietantes, possibilidades de trabalho, novas religiosidades, caminhos políticos e experiências de amor e liberdade. Entre as pessoas distingo muitos professores, bibliotecários e colegas dos bancos escolares. Meus horizontes foram alargados e pude entrever um mundo para além dos limites familiares. Encontrei pares e parceiros que sem a escola formal não teriam atravessado meu caminho e eu teria, com certeza, me estreitado entre os universos de meu bairro e do centro da cidade onde trabalhava em um escritório. Realmente o currículo disciplinar em si pouco me proporcionou em aprendizagem.
Os conhecimentos atinentes às disciplinas só se tornaram realmente conhecidos quando atrelados aos meus interesses específicos, às minhas experiências emocionais, quando atingiram profundamente meus desejos de me constituir como pessoa participante do mundo e como subjetividade que se reconhecia, pouco a pouco, como alguém que pensava de maneira particular e com lances de intersubjetividade, de possibilidades de comunicação com outros seres da mesma espécie, da mesma ou de outras culturas.
Penso que a construção do real se dá num diálogo crítico constante com o ideal. Assim o fizeram Dewey, Paulo Freire, Anísio Teixeira e Rubem Alves, os mais importantes no meu referencial teórico. Como teóricos tiveram o privilégio de construir concepções mais radicalmente posicionadas, numa ação de desconstrução do pensamento vigente com vigor, clareza e profundidade de argumentos apaixonados e iluminadores de novos caminhos; agiram como profetas que apontavam para novos mundos mais acolhedores para a inteligência humana.
Porém, os que tiveram que se imiscuir nas instituições educacionais organizadas, estabeleceram pontes entre a teoria e a prática convencional, afinal, no interior dos estabelecimentos de ensino e dos órgãos administrativos e de avaliação, militam pessoas das mais variadas tendências pedagógico-filosóficas. Para construir novas formas de educar dentro do estado de direito, dentro da sociedade organizada, foi necessária uma aproximação por fases adaptativas de ações intermediárias, afinal, teoria na cabeça de um pensador profissional não entra no dia-a-dia de um professor por osmose. A reconstruçao de um percurso de pensamento e de ação cotidiana não se faz por decreto, a não ser que se aja de forma autoritária, impingindo aos outros aquilo que foi esquematizado brilhantemente entre quatro paredes.
Seja por ação ideológica, por imposição burocrática ou por força física, não se convence ninguém a pensar e agir segundo a convicção alheia. Cada um age no limite entre o que pensa e o que querem que faça. Professores diariamente fazem um meio termo entre atender à orientações legais, determinações administrativas e sua própria concepção e filiação a determinada escola pedagógico-filosófica.
Eu gostaria de ver acontecer em massa a escola sem currículo disciplinar, mas quem saberia fazê-la? Quem saberia dirigir uma escola por projetos? Ou melhor, quantos a desejariam comigo? Na Escola da Ponte e na Amorim Lima as coisas aconteceram porque os educadores envolvidos acreditavam na proposta, estudaram e discutiram juntos, enfrentaram associadamente as dificuldades e o coro e o terrorismo burocrático dos " do contra". A escola sem currículo disciplinar só nascerá quando as pessoas da sociedade brasileira a desejarem, sejam leigos, educadores, políticos, intelectuais e a classe empresarial. Nao se formam homens fora da sociedade, nao há um mundo ideal onde se fazem pessoas; pessoas nascem do cotidiano, de um meio sócio-econômico, de uma cultura determinada, é tudo muito complexo para se resolver com o desejo de poucos.
A única alternativa que eu vejo é a construção de mais experiências com essas novas escolas, nascidas dos desejos de educadores que se encontram e se organizam para exigir do poder público o direito de viverem suas experiências de mudança. A multiplicação de experiências da visibilidade e legitimidade para as ideias e apaixonam muitos que à elas se associam e por elas lutam.
Tendo em vista o imaginário constituído por pais e professores, por representantes da política, da Academia e da economia, todos atrelados, conscientes ou inconscientes, aos interesses neoliberais, penso que é óbvio que não haja desejo em se constituir imediatamente uma escola realmente interessada em formar um indivíduo que pense com propriedade e autonomia consciencial. Entao, como alternativa mediata, defendo a manutenção das disciplinas nas escolas que não desejarem a experiência radical da liberdade curricular, estimulando espaços e tempos para o trabalho incessante de pensamento e construção de experiências verdadeiramente atreladas ao desejo de mudança dos interessados envolvidos.
Quanto a uma mudança radical que extinga o sistema curricular vigente, penso que seria simplesmente abrir mão de uma conquista histórica, especialmente para filosofia e sociologia. Não há professores e alunos ideais para trabalharem com filosofia e sociologia, e com disciplina alguma. Há pessoas reais envolvidas com políticas públicas e que lutam diariamente para encontrar caminhos de realizar seus sonhos dentro dos limites determinados pelas fontes do poder, sejam elas quais forem e emanadas das instâncias mais diversas.
Quanto à eterna crítica aos pedagogos... prefiro não me pronunciar, afinal sou formada em Pedagogia, curso que fiz com paixão, e onde nasceu meu profundo desejo de ter maior fundamentação filosófica para compreender o homem que eu desejaria formar, adequado à cosmovisão à qual me filiava. Da Pedagogia fui para a Filosofia e encontrei, no Mestrado, a possibilidade real de estabelecer um diálogo entre ambas, sendo a segunda forjada pelas experiências da primeira. Só porque os homens se preocuparam em pensar sobre o conhecer é que a Filosofia nasceu, e conhecer é conceito fundamental para a educação. A Pedagogia me permitiu não ficar restrita ao minarete da Filosofia de onde se proclamam maravilhosas ideias que não encontram diálogo com o homem comum que, lá embaixo, no lufa-lufa do dia-a-dia, escuta um ribombo incompreensível. E a Filosofia me permitiu não me entregar mecanicamente aos ditames burocráticos, às orientações legais e à técnica pedagógica sem críticas. Ela me fortaleceu no sentido de compreender mais profundamento o meu ato pedagógico. Mas fundamentalmente, a Filosofia provocou mudanças na minha maneira de ensinar, e a Pedagogia, vivida, me motivou a refletir sobre as concepções filosóficas e os limites de suas expressões.
Do ponto de vista lógico entendo que há uma máquina tecno-burocrática pedagógica em ação, mas há valorosos pedagogos que pensam e atuam de maneira crítica e inovadora.
Estou aposentada, não atualizada teoricamente, e não posso falar da prática das escolas pois, em quase quatro anos, muito já se transformou, mas não me furtei ao clamor da amiga que me instou a expressar minha opinião.
Ao meu brilhante ex-aluno, só posso agradecer sua fala por ela me proporcionar o exercício da reflexão, e digo à ele, especialmente, que seu discurso é um forte elemento daquilo que acredito: é no discurso e no diálogo críticos que nascem as inspirações para ações inovadoras e audaciosas.
O texto da postagem discute a reformulação do currículo escolar brasileiro. O autor discorre de maneira crítica e profunda, e, entre suas várias colocações se manifesta favorável a um currículo não disciplinar, nominalmente se referindo à extinção das disciplinas filosofia e sociologia da grade do Ensino Médio.
Eu tenho fortes vínculos com a concepção deweyana de educação, e, portanto, creio na eficácia de um currículo baseado em experiências nascidas de projetos construídos por alunos com a orientação de professores. Creio firmemente que as experiências da Escola da Ponte e da Amorim Lima, bem como da Escola Laboratório de John Dewey, atestam a possibilidade real de se produzir educação de maneira legítima e firmemente calcada no interesse particular e associado de pessoas inteligentes que interagem no ato de ensinar-aprender, independente da existência de um currículo disciplinar.
O currículo escolar brasileiro é imenso em termos de disciplinas e de conteúdos, com privilégios em carga horária para algumas delas, além de haver uma forte direção legal para a orientação dos objetivos, habilidades e competências descritos como ideais para a formação do cidadão e o domínio dos conhecimentos universais, notadamente exagerados na expectativa que acaba sendo um ideal com pouca capacidade de alumiar o trabalho docente na realidade da sala de aula, seja pública ou privada.
Por força desse post eu me entreguei a reminiscências escolares e, de verdade, procurei elencar o que aprendi na escola. Minha educação formal proporcionou muito conhecimento interpessoal, aprendi muito acerca das relações humanas; a escola permitiu que eu conhecesse pessoas interessantíssimas que me apresentaram músicas e músicos, leituras inquietantes, possibilidades de trabalho, novas religiosidades, caminhos políticos e experiências de amor e liberdade. Entre as pessoas distingo muitos professores, bibliotecários e colegas dos bancos escolares. Meus horizontes foram alargados e pude entrever um mundo para além dos limites familiares. Encontrei pares e parceiros que sem a escola formal não teriam atravessado meu caminho e eu teria, com certeza, me estreitado entre os universos de meu bairro e do centro da cidade onde trabalhava em um escritório. Realmente o currículo disciplinar em si pouco me proporcionou em aprendizagem.
Os conhecimentos atinentes às disciplinas só se tornaram realmente conhecidos quando atrelados aos meus interesses específicos, às minhas experiências emocionais, quando atingiram profundamente meus desejos de me constituir como pessoa participante do mundo e como subjetividade que se reconhecia, pouco a pouco, como alguém que pensava de maneira particular e com lances de intersubjetividade, de possibilidades de comunicação com outros seres da mesma espécie, da mesma ou de outras culturas.
Penso que a construção do real se dá num diálogo crítico constante com o ideal. Assim o fizeram Dewey, Paulo Freire, Anísio Teixeira e Rubem Alves, os mais importantes no meu referencial teórico. Como teóricos tiveram o privilégio de construir concepções mais radicalmente posicionadas, numa ação de desconstrução do pensamento vigente com vigor, clareza e profundidade de argumentos apaixonados e iluminadores de novos caminhos; agiram como profetas que apontavam para novos mundos mais acolhedores para a inteligência humana.
Porém, os que tiveram que se imiscuir nas instituições educacionais organizadas, estabeleceram pontes entre a teoria e a prática convencional, afinal, no interior dos estabelecimentos de ensino e dos órgãos administrativos e de avaliação, militam pessoas das mais variadas tendências pedagógico-filosóficas. Para construir novas formas de educar dentro do estado de direito, dentro da sociedade organizada, foi necessária uma aproximação por fases adaptativas de ações intermediárias, afinal, teoria na cabeça de um pensador profissional não entra no dia-a-dia de um professor por osmose. A reconstruçao de um percurso de pensamento e de ação cotidiana não se faz por decreto, a não ser que se aja de forma autoritária, impingindo aos outros aquilo que foi esquematizado brilhantemente entre quatro paredes.
Seja por ação ideológica, por imposição burocrática ou por força física, não se convence ninguém a pensar e agir segundo a convicção alheia. Cada um age no limite entre o que pensa e o que querem que faça. Professores diariamente fazem um meio termo entre atender à orientações legais, determinações administrativas e sua própria concepção e filiação a determinada escola pedagógico-filosófica.
Eu gostaria de ver acontecer em massa a escola sem currículo disciplinar, mas quem saberia fazê-la? Quem saberia dirigir uma escola por projetos? Ou melhor, quantos a desejariam comigo? Na Escola da Ponte e na Amorim Lima as coisas aconteceram porque os educadores envolvidos acreditavam na proposta, estudaram e discutiram juntos, enfrentaram associadamente as dificuldades e o coro e o terrorismo burocrático dos " do contra". A escola sem currículo disciplinar só nascerá quando as pessoas da sociedade brasileira a desejarem, sejam leigos, educadores, políticos, intelectuais e a classe empresarial. Nao se formam homens fora da sociedade, nao há um mundo ideal onde se fazem pessoas; pessoas nascem do cotidiano, de um meio sócio-econômico, de uma cultura determinada, é tudo muito complexo para se resolver com o desejo de poucos.
A única alternativa que eu vejo é a construção de mais experiências com essas novas escolas, nascidas dos desejos de educadores que se encontram e se organizam para exigir do poder público o direito de viverem suas experiências de mudança. A multiplicação de experiências da visibilidade e legitimidade para as ideias e apaixonam muitos que à elas se associam e por elas lutam.
Tendo em vista o imaginário constituído por pais e professores, por representantes da política, da Academia e da economia, todos atrelados, conscientes ou inconscientes, aos interesses neoliberais, penso que é óbvio que não haja desejo em se constituir imediatamente uma escola realmente interessada em formar um indivíduo que pense com propriedade e autonomia consciencial. Entao, como alternativa mediata, defendo a manutenção das disciplinas nas escolas que não desejarem a experiência radical da liberdade curricular, estimulando espaços e tempos para o trabalho incessante de pensamento e construção de experiências verdadeiramente atreladas ao desejo de mudança dos interessados envolvidos.
Quanto a uma mudança radical que extinga o sistema curricular vigente, penso que seria simplesmente abrir mão de uma conquista histórica, especialmente para filosofia e sociologia. Não há professores e alunos ideais para trabalharem com filosofia e sociologia, e com disciplina alguma. Há pessoas reais envolvidas com políticas públicas e que lutam diariamente para encontrar caminhos de realizar seus sonhos dentro dos limites determinados pelas fontes do poder, sejam elas quais forem e emanadas das instâncias mais diversas.
Quanto à eterna crítica aos pedagogos... prefiro não me pronunciar, afinal sou formada em Pedagogia, curso que fiz com paixão, e onde nasceu meu profundo desejo de ter maior fundamentação filosófica para compreender o homem que eu desejaria formar, adequado à cosmovisão à qual me filiava. Da Pedagogia fui para a Filosofia e encontrei, no Mestrado, a possibilidade real de estabelecer um diálogo entre ambas, sendo a segunda forjada pelas experiências da primeira. Só porque os homens se preocuparam em pensar sobre o conhecer é que a Filosofia nasceu, e conhecer é conceito fundamental para a educação. A Pedagogia me permitiu não ficar restrita ao minarete da Filosofia de onde se proclamam maravilhosas ideias que não encontram diálogo com o homem comum que, lá embaixo, no lufa-lufa do dia-a-dia, escuta um ribombo incompreensível. E a Filosofia me permitiu não me entregar mecanicamente aos ditames burocráticos, às orientações legais e à técnica pedagógica sem críticas. Ela me fortaleceu no sentido de compreender mais profundamento o meu ato pedagógico. Mas fundamentalmente, a Filosofia provocou mudanças na minha maneira de ensinar, e a Pedagogia, vivida, me motivou a refletir sobre as concepções filosóficas e os limites de suas expressões.
Do ponto de vista lógico entendo que há uma máquina tecno-burocrática pedagógica em ação, mas há valorosos pedagogos que pensam e atuam de maneira crítica e inovadora.
Estou aposentada, não atualizada teoricamente, e não posso falar da prática das escolas pois, em quase quatro anos, muito já se transformou, mas não me furtei ao clamor da amiga que me instou a expressar minha opinião.
Ao meu brilhante ex-aluno, só posso agradecer sua fala por ela me proporcionar o exercício da reflexão, e digo à ele, especialmente, que seu discurso é um forte elemento daquilo que acredito: é no discurso e no diálogo críticos que nascem as inspirações para ações inovadoras e audaciosas.
giovedì 25 settembre 2014
Conversando sobre "morte".
Sábado passado soube da morte de uma tia minha, cunhada de meu pai, ao mesmo tempo que meu companheiro também perdia uma tia materna. Estou aqui há três anos e três meses e, nesse período, já ocorreu a morte de 20 pessoas de meu conhecimento, entre parentes, amigos e colegas, fora mais de cinco do conhecimento de meu companheiro, sem contabilizar os famosos e importantes para a coletividade.
Lembro de sempre conversar sobre o tema morte com minha falecida avó materna, ela vivia me perguntando se iria continuar viva, para onde iria, quem encontraria, como seria... e um dia, uma prima mineira, ao acompanhar nossa conversa, falou depois comigo que achava muito tétrico o papo, e eu disse à ela que pensava ser muito salutar, afinal o fenômeno da morte, até o presente momento, é evento inevitável, e é melhor tratar com tranquilidade acerca dele do que se desesperar ao enfrentá-lo.
Sempre dizia para minha avó que quando vamos viajar nos preparamos bem, nos informamos sobre o local para onde iremos, quais objetos devemos portar, com quem nos encontraremos, onde nos alojaremos, quanto devemos despender em tal aventura. Sabemos que poderemos encontrar imprevistos, mas, em geral, partimos com expectativas otimistas. Esse era meu argumento com ela para justificar a importância da conversa sobre o evento morrer. Já que é inevitável, deve-se, na minha opinião, versar sobre ele de forma coloquial e, ao mesmo tempo, profunda. Da mesma maneira que me preparo para viagens, me preocupo em estar mais habilitada para lidar com a minha morte e das pessoas com as quais tenho vínculos, e até mesmo com a morte de desconhecidos.
Parto do pressuposto de que nada morre ou desaparece no universo, de que toda matéria é energia, de que tudo se transforma, de que há ciclos de existência, daí que o que nomeamos morte é um evento de transformação, de finalização de um ciclo.
Aquilo que se expressa como vida humana tem um aspecto material visível, mas há também notadamente uma constituinte imponderável que imprime significado à nossa expressão no mundo. Esse aspecto imponderável que podemos chamar vulgarmente de alma, consciência, espírito, mente, é indestrutível após a morte do corpo físico, mas continua a expressar-se com identidade própria para além do alcance limitado de nossa dimensão material. Podem-se utilizar inúmeras citações religiosas e científicas, metafísicas e metacientíficas para fundamentar tal concepção de morte: budismo, hinduísmo, espiritismo, kabbalah, metapsíquica, teosofia, projeciologia, conscienciologia, estudos sobre parapsicologia, EQM (experiências de quase morte) e TCI (transcomunicação instrumental), tendo como suportes conhecimentos de física quântica, astrofísica, arqueoufologia, entre tantos outros.
Chavões como "a morte é um mistério", "dela ninguém voltou para informar coisa alguma", "ninguém voltou para dar sinal de vida", demonstram um desconhecimento dos construtos teóricos e práticos acima mencionados. Há inúmeros relatos de casos e experimentos cientificamente acompanhados que demonstram a continuidade da existência humana fora do corpo físico, em vida física e após o seu término. Claro que não me referi à uma ciência restrita aos cânones acadêmicos, mas à uma ciência holística e interdependente que dialoga sem escravizar-se às regras cartesianas, aos aspectos da linearidade, da repetibilidade mecânica de fenômenos controlados, os quais tem seu mérito em determinados contextos, mas sem validade universal para todos os eventos estudados.
Quando se fala em comprovação da vida após a morte física, pensa-se em termos de um sujeito cognoscente que se mantém, mesmo após "morto", cognoscível aos cognoscentes "vivos"; ou seja, quem morre continua aprendendo e pode ser apreendido pelos vivos, mas, em se tratando de uma inteligência ativa, deve-se depreender que ela é também sujeito de sua manifestação, e não apenas objeto de pesquisa como um rato de laboratório recluso em uma gaiola. Não se trata de uma pesquisa que pode pautar-se por cânones clássicos da ciência moderna, mas que deve se abrir para uma perspectiva holística do objeto estudado, inclusive com a interferência do objeto que se traduz como sujeito, como vemos especificamente na TCI, onde inteligências de pessoas, humanas e não humanas, colaboram e até mesmo induzem experiências científicas para o contato e o registro de suas manifestações, comprovando a existência de outros âmbitos para a vida consciencial, que não só a dita "vida humana terrena".
Não existem definições fechadas, verdades estabelecidas e nem descrições universalistas. As informações que se obtêm em tais estudos são diversificadas, e abrem imensas janelas para se vislumbrar uma infinidade de possibilidades de vida para além dos limites de nossas percepções físicas.
Conversar sobre tal tema abre espaços mentais, favorece a constituição de sinapses que permitirão a identificação de tais ideias como habituais, que serão base para a construção de novos conceitos e novas concepções sobre a morte, produzindo possibilidades de novos caminhos para a pesquisa pessoal e a profissional. Porões escuros e fechados produzem monstros imaginários e ali não entramos com medo de travar encontros com o desconhecido. Salas abertas, iluminadas e arejadas nos permitem identificar os elementos presentes e com eles travarmos contato. Assim são as conversas sobre a morte, são janelas que permitem vislumbrar novos horizontes que são descortinados por nós e, ao mesmo tempo, construídos por nós, como verdades provisórias que nos alentam e nos sustentam em nossas experiências de "perdas" nas várias fases da vida, aqui e além.
Lembro de sempre conversar sobre o tema morte com minha falecida avó materna, ela vivia me perguntando se iria continuar viva, para onde iria, quem encontraria, como seria... e um dia, uma prima mineira, ao acompanhar nossa conversa, falou depois comigo que achava muito tétrico o papo, e eu disse à ela que pensava ser muito salutar, afinal o fenômeno da morte, até o presente momento, é evento inevitável, e é melhor tratar com tranquilidade acerca dele do que se desesperar ao enfrentá-lo.
Sempre dizia para minha avó que quando vamos viajar nos preparamos bem, nos informamos sobre o local para onde iremos, quais objetos devemos portar, com quem nos encontraremos, onde nos alojaremos, quanto devemos despender em tal aventura. Sabemos que poderemos encontrar imprevistos, mas, em geral, partimos com expectativas otimistas. Esse era meu argumento com ela para justificar a importância da conversa sobre o evento morrer. Já que é inevitável, deve-se, na minha opinião, versar sobre ele de forma coloquial e, ao mesmo tempo, profunda. Da mesma maneira que me preparo para viagens, me preocupo em estar mais habilitada para lidar com a minha morte e das pessoas com as quais tenho vínculos, e até mesmo com a morte de desconhecidos.
Parto do pressuposto de que nada morre ou desaparece no universo, de que toda matéria é energia, de que tudo se transforma, de que há ciclos de existência, daí que o que nomeamos morte é um evento de transformação, de finalização de um ciclo.
Aquilo que se expressa como vida humana tem um aspecto material visível, mas há também notadamente uma constituinte imponderável que imprime significado à nossa expressão no mundo. Esse aspecto imponderável que podemos chamar vulgarmente de alma, consciência, espírito, mente, é indestrutível após a morte do corpo físico, mas continua a expressar-se com identidade própria para além do alcance limitado de nossa dimensão material. Podem-se utilizar inúmeras citações religiosas e científicas, metafísicas e metacientíficas para fundamentar tal concepção de morte: budismo, hinduísmo, espiritismo, kabbalah, metapsíquica, teosofia, projeciologia, conscienciologia, estudos sobre parapsicologia, EQM (experiências de quase morte) e TCI (transcomunicação instrumental), tendo como suportes conhecimentos de física quântica, astrofísica, arqueoufologia, entre tantos outros.
Chavões como "a morte é um mistério", "dela ninguém voltou para informar coisa alguma", "ninguém voltou para dar sinal de vida", demonstram um desconhecimento dos construtos teóricos e práticos acima mencionados. Há inúmeros relatos de casos e experimentos cientificamente acompanhados que demonstram a continuidade da existência humana fora do corpo físico, em vida física e após o seu término. Claro que não me referi à uma ciência restrita aos cânones acadêmicos, mas à uma ciência holística e interdependente que dialoga sem escravizar-se às regras cartesianas, aos aspectos da linearidade, da repetibilidade mecânica de fenômenos controlados, os quais tem seu mérito em determinados contextos, mas sem validade universal para todos os eventos estudados.
Quando se fala em comprovação da vida após a morte física, pensa-se em termos de um sujeito cognoscente que se mantém, mesmo após "morto", cognoscível aos cognoscentes "vivos"; ou seja, quem morre continua aprendendo e pode ser apreendido pelos vivos, mas, em se tratando de uma inteligência ativa, deve-se depreender que ela é também sujeito de sua manifestação, e não apenas objeto de pesquisa como um rato de laboratório recluso em uma gaiola. Não se trata de uma pesquisa que pode pautar-se por cânones clássicos da ciência moderna, mas que deve se abrir para uma perspectiva holística do objeto estudado, inclusive com a interferência do objeto que se traduz como sujeito, como vemos especificamente na TCI, onde inteligências de pessoas, humanas e não humanas, colaboram e até mesmo induzem experiências científicas para o contato e o registro de suas manifestações, comprovando a existência de outros âmbitos para a vida consciencial, que não só a dita "vida humana terrena".
Não existem definições fechadas, verdades estabelecidas e nem descrições universalistas. As informações que se obtêm em tais estudos são diversificadas, e abrem imensas janelas para se vislumbrar uma infinidade de possibilidades de vida para além dos limites de nossas percepções físicas.
Conversar sobre tal tema abre espaços mentais, favorece a constituição de sinapses que permitirão a identificação de tais ideias como habituais, que serão base para a construção de novos conceitos e novas concepções sobre a morte, produzindo possibilidades de novos caminhos para a pesquisa pessoal e a profissional. Porões escuros e fechados produzem monstros imaginários e ali não entramos com medo de travar encontros com o desconhecido. Salas abertas, iluminadas e arejadas nos permitem identificar os elementos presentes e com eles travarmos contato. Assim são as conversas sobre a morte, são janelas que permitem vislumbrar novos horizontes que são descortinados por nós e, ao mesmo tempo, construídos por nós, como verdades provisórias que nos alentam e nos sustentam em nossas experiências de "perdas" nas várias fases da vida, aqui e além.
mercoledì 24 settembre 2014
Superficialidade apontada é superficialidade não suplantada.
Há algum tempo atrás, num final de semana, fomos, eu, meu companheiro e seu filho mais novo, assistir uma fala de um monge budista tibetano, aqui próximo, em Gardone. Foi uma tarde memorável em que aprendi uma forma interessante de meditação com mobilização e exteriorização de energias, a qual pude complementar com meus parcos conhecimentos de Reiki.
Também apreciei as explicações do monge acerca dos conceitos de karma e dharma, porém, creio que a mais profunda aprendizagem adveio de uma intervenção do garoto, na ocasião com 14 anos, acerca de um comentário meu.
Tenho o grave hábito de julgar pessoas e situações, só atentando para minha leviandade depois de externar meus juízos. E, durante a palestra, eu apreendia as falas do monaco e as relacionava com meus conhecimentos anteriores, além de ter participado sinceramente do exercício meditativo com uma integração verdadeira com o movimento de energias na sala. Porém, ao largo de toda essa manifestação de espiritualidade elevada, eu, dos porões dos meus hábitos arraigados de tantas existências pregressas, também manifestava, em minha consciência, o registro da observação sobre o comportamento das pessoas, do espaço e das coisas dispostas, julgando tudo e todos.
Ao sairmos da palestra-meditação, como sempre, iniciei uma conversação com os meus dois companheiros sobre o que havíamos aprendido com a fala do monge e quais as impressões deles acerca do ambiente. Eles, como de hábito, deram opiniões monossilábicas, e eu, como boa geminiana, expressei todas as minhas ideias acerca do evento, e, para coroar meu exibicionismo, finalizei com o comentário acerca do excesso de cuidado das pessoas presentes com a aparência física, indumentária e a mise-en-scène frente ao monge, tudo muito longe do conteúdo de tudo que ali foi discutido, o que para mim indicava a superficialidade dos comportamentos.
O filho de meu companheiro, como sempre o faz, me calou fundo com um simples comentário - o que também meus filhos fazem constantemente - disse-me que, na verdade, aquelas pessoas, só por estarem ali, já estavam aprendendo algo, o que demonstrava que já estavam se abrindo para a fala do monaco e isso constituía um grande valor.
Incrível como esse italianinho que nada expressa em termos de conhecimentos religiosos, tem uma imensa religiosidade com a natureza e a humanidade, demonstrando sensibilidade e elevação moral, que eu, com todos os meus salamaleques de conhecimentos teóricos, mal sinto o cheiro, que dirá demonstrar em forma de comportamento.
Nossos comportamentos nos revelam e meus comentários dizem do que ainda vai de lixo nos porões da minha inconsciência.
Revendo esse episódio, lembrei também da fala de uma palestrante espírita, a qual relatou que foi criticada em um centro espírita, no sentido de que ela falava de humildade e se apresentava com jóias e roupas caras e elegantes. Ela disse do quanto já havia se despido dos excessos que seu meio sócio-econômico lhe haviam impingindo em sua educação, e que aquilo que a pessoa criticava já era seu momento de superação.
Julgar os outros é na verdade apontar nossos próprios defeitos ou nossas qualidades. Se aprovamos alguém é porque essa pessoa espelha o que gostamos em nós. Se desaprovamos alguém é porque essa pessoa espelha o que nos desagrada em nós mesmos.
Eu, ao julgar aquelas pessoas acerca de sua superficialidade, não observei que quem focalizava a superficialidade era eu mesma, que estava ainda tão preocupada com esse aspecto que ainda o observava; quando algo sai de nosso foco é porque já não faz parte de nossa agenda evolutiva. Se eu ainda me preocupo em observar a superficialidade, é porque eu a superei exteriormente mas ainda carrego seus fantasmas dentro de mim, das minhas identidades anteriores que ainda insistem em me arrastar para seus vícios e eu, na minha atual condição de exercício de simplicidade, ainda sinto seus apelos.
Também quem disse que se apresentar com elegância e beleza é um valor negativo? Chico Xavier dizia que o mundo já tem muitas coisas feias para que a gente ainda se apresente com desmazelo.
Enfim, nao é auto-martírio consciencial expressar todos esse percurso reflexivo, mas um auto-alerta pessoal, para eu dar mais atenção às ideias que rondam minha cabeça e que são reflexos de um passado que deve ser valorizado como aprendizado, mas descartado enquanto modos de resolução de problemas que não mais encontram utilidade na atual proposta de vida.
Ao invés de criticar aquelas pessoas como superficiais, eu poderia ter o pensamento similar ao do meu filho "adotivo", ter a generosidade de ver o esforço daqueles que se aproximam do exercício de desenvolvimento espiritual, independente de suas aparências.
Também apreciei as explicações do monge acerca dos conceitos de karma e dharma, porém, creio que a mais profunda aprendizagem adveio de uma intervenção do garoto, na ocasião com 14 anos, acerca de um comentário meu.
Tenho o grave hábito de julgar pessoas e situações, só atentando para minha leviandade depois de externar meus juízos. E, durante a palestra, eu apreendia as falas do monaco e as relacionava com meus conhecimentos anteriores, além de ter participado sinceramente do exercício meditativo com uma integração verdadeira com o movimento de energias na sala. Porém, ao largo de toda essa manifestação de espiritualidade elevada, eu, dos porões dos meus hábitos arraigados de tantas existências pregressas, também manifestava, em minha consciência, o registro da observação sobre o comportamento das pessoas, do espaço e das coisas dispostas, julgando tudo e todos.
Ao sairmos da palestra-meditação, como sempre, iniciei uma conversação com os meus dois companheiros sobre o que havíamos aprendido com a fala do monge e quais as impressões deles acerca do ambiente. Eles, como de hábito, deram opiniões monossilábicas, e eu, como boa geminiana, expressei todas as minhas ideias acerca do evento, e, para coroar meu exibicionismo, finalizei com o comentário acerca do excesso de cuidado das pessoas presentes com a aparência física, indumentária e a mise-en-scène frente ao monge, tudo muito longe do conteúdo de tudo que ali foi discutido, o que para mim indicava a superficialidade dos comportamentos.
O filho de meu companheiro, como sempre o faz, me calou fundo com um simples comentário - o que também meus filhos fazem constantemente - disse-me que, na verdade, aquelas pessoas, só por estarem ali, já estavam aprendendo algo, o que demonstrava que já estavam se abrindo para a fala do monaco e isso constituía um grande valor.
Incrível como esse italianinho que nada expressa em termos de conhecimentos religiosos, tem uma imensa religiosidade com a natureza e a humanidade, demonstrando sensibilidade e elevação moral, que eu, com todos os meus salamaleques de conhecimentos teóricos, mal sinto o cheiro, que dirá demonstrar em forma de comportamento.
Nossos comportamentos nos revelam e meus comentários dizem do que ainda vai de lixo nos porões da minha inconsciência.
Revendo esse episódio, lembrei também da fala de uma palestrante espírita, a qual relatou que foi criticada em um centro espírita, no sentido de que ela falava de humildade e se apresentava com jóias e roupas caras e elegantes. Ela disse do quanto já havia se despido dos excessos que seu meio sócio-econômico lhe haviam impingindo em sua educação, e que aquilo que a pessoa criticava já era seu momento de superação.
Julgar os outros é na verdade apontar nossos próprios defeitos ou nossas qualidades. Se aprovamos alguém é porque essa pessoa espelha o que gostamos em nós. Se desaprovamos alguém é porque essa pessoa espelha o que nos desagrada em nós mesmos.
Eu, ao julgar aquelas pessoas acerca de sua superficialidade, não observei que quem focalizava a superficialidade era eu mesma, que estava ainda tão preocupada com esse aspecto que ainda o observava; quando algo sai de nosso foco é porque já não faz parte de nossa agenda evolutiva. Se eu ainda me preocupo em observar a superficialidade, é porque eu a superei exteriormente mas ainda carrego seus fantasmas dentro de mim, das minhas identidades anteriores que ainda insistem em me arrastar para seus vícios e eu, na minha atual condição de exercício de simplicidade, ainda sinto seus apelos.
Também quem disse que se apresentar com elegância e beleza é um valor negativo? Chico Xavier dizia que o mundo já tem muitas coisas feias para que a gente ainda se apresente com desmazelo.
Enfim, nao é auto-martírio consciencial expressar todos esse percurso reflexivo, mas um auto-alerta pessoal, para eu dar mais atenção às ideias que rondam minha cabeça e que são reflexos de um passado que deve ser valorizado como aprendizado, mas descartado enquanto modos de resolução de problemas que não mais encontram utilidade na atual proposta de vida.
Ao invés de criticar aquelas pessoas como superficiais, eu poderia ter o pensamento similar ao do meu filho "adotivo", ter a generosidade de ver o esforço daqueles que se aproximam do exercício de desenvolvimento espiritual, independente de suas aparências.
venerdì 30 maggio 2014
Violência e insegurança íntima
Nos meus últimos anos vivendo no Brasil, até 2011, eu desenvolvi um comportamento que, penso eu, me levaria à síndrome do pânico ou no mínimo ao aprofundamento de neuroses; claro que estou exercendo ilegalmente alguma profissão ao fazer um autodiagnóstico, porém, a hipótese é valida. Eu trabalhava nos períodos matutino, vespertino e noturno, em dias alternados, e sair à rua era um tormento, o medo de assaltos e violência era uma constante. Meus filhos e minha mãe me alertavam que aquilo estava além da conta.
Do ponto de vista prático eu sofri, em todos os anos de vida até então, apenas quatro tentativas entre diurnas e noturnas, e ainda assim frustradas, de furto ou algum outro tipo de violência física, o que por si só já me coloca no rol dos sortudos que nada tiveram de prejuízo no âmbito discutido; mas o fato é que eu via, de longe, quando saia da universidade à noite, alunos serem assaltados e, por precaução, além de relatar o fato aos seguranças da instituição, passei a caminhar pelo meio da rua, numa atitude periculosa para mim. Andava rapidamente e com taquicardia quando alguém vinha em minha direção.
Todos os tipos de preconceitos vem à tona quando se esta em situação hipotética de perigo, todos as crenças infundadas, todo o imaginário propalado pela mídia televisiva e jornalística em geral. Vive-se imerso em um imaginário de possíveis tormentos, como numa espera de sua realização.
Depois que vim habitar em colina do Lago di Garda, passei a dormir com janelas abertas, caminhar sozinha por mais de hora por vias ermas durante o dia, e por vias escuras à noite com pessoas da família, sem medo algum. Pois justamente três anos após minha chegada, numa noite em que um familiar não fechou corretamente uma janela da sala, entrou uma pessoa durante a madrugada e levou algum dinheiro, dois computadores e algumas peças de roupas. Ironia do destino e imprevidência do excesso de auto-segurança. Aqui eles pensavam, e eu acreditava, que estávamos no paraíso.
Conclusão, agora eu fiz questão de ferrolhos reforçados nas janelas e estamos implantando sistema de alarme coligado à polícia. Veja só, venho de um país que vive índices elevadíssimos de violência, de uma cidade como Santos que une o crescimento econômico ao aprofundamento da criminalidade, sem nunca ter sofrido um evento real de furto, e acabo num suposto paraíso natural e social onde tenho a casa invadida. Perdi a inocência rsrsrssr
Por aqui, a violência logicamente existe mas era apenas vista pelo noticiário, em cidades grandes, em casos passionais ou na criminalidade sistemática das regiões da Camorra, da Mafia, da Ndrangheta, da Cosa Nostra. Onde moro, o último roubo significativo havia sido em 2000 numa joalheria. Assassinato, nenhum relato recente. Notícias apenas de um amigo da família que viu um vulto pulando a janela mas que nada furtou. Boatos de jovens que furtavam celulares no Valle delle Cartiere.
Duas questões me levaram a escrever hoje, primeiro a insegurança íntima pessoal, em segundo lugar o pensamento acerca do outro, daquele que age contra nós.
Com relação ao primeiro ponto, a insegurança íntima pessoal, penso que devo considerar a condição humana de ser exposto no mundo; o mundo em que vivemos, de sempre, apresenta situações de violência e nenhum de nós está isento de ser atingido por ela; diariamente são guerras, atentados, estupros, roubos, furtos, assassinatos, mas, principalmente, as pequenas violências de uns contra os outros, verbais e gestuais, olhares e comentários, pensamentos escusos. Penso que a violência é um comportamento humano de defesa, um resquício animal da proteção do espaço vital, vi isso por toda a minha vida profissional e familiar; analiso que, pessoalmente, toda violência emitida por mim tem sempre por fundo tal escopo, defender-me. Pretendo preservar meu ego, minhas pequenas e medíocres conquistas íntimas.
Por outro lado, entendo que a violência social gera a violência criminosa. O indivíduo que entrou em casa e se apossou de alguns objetos, tinha a premência de garantir certas necessidades pessoais, assim como meu companheiro se dirige à fábrica para sustentar a família. A diferença entre meu companheiro e o indivíduo que entrou em casa, além de óbvios valores morais, são itens hipotéticos como perspectiva de vida futura, possibilidade de projeto pessoal, educação formal e orientação familiar. Mas, principalmente, uma sociedade organizada que não dá suporte ao desenvolvimento do indivíduo com vistas à sua realização pessoal e dirigido ao Bem Comum, fomenta a violência de toda e qualquer espécie, o que sucede, com certeza, no Brasil e na Itália.
Os primeiros comentários após o furto foram acerca do outro, daquele que agiu contra nós, e foram bem discriminatórios, e isso me fez pensar em como concebemos o outro em nossa vida. Primeiro que ele não agiu contra nós, mas efetuou uma ação que, ao ver dele, era a solução para um encaminhamento de vida, não importava quem seria o prejudicado, bastava ver qual casa tinha as janelas mal fechadas. O "normal" foi culpar o elemento esquecendo que alguém na casa deu sorte para o azar. Segundo que não passou pela cabeça de ninguém que falávamos de uma situação social que se agrava dia a dia por um sistema econômico-social global que gera a massa de desconsiderados que vão cavar, mais cedo ou mais tarde, uma forma de sobrevivência, seja ela adequada, ou não, aos nossos valore morais pessoais.
A verdade é que o outro, o nosso "inimigo", é o irmão em humanidade que não queremos ver, que desejamos seja extirpado e colocado ao largo, o mais longe possível. Eu fugia desse irmão quando dos tempos de trabalho noturno, fujo dele agora na Itália, o Brasil da Europa como dizem alguns alemães.
Uma questão relevante, além de considerar todo o contexto de forja dessa violência sistemática, é, como diz meu filho mais velho, como encontrar o diálogo necessário entre algoz e vítima, entre o eu e o outro, como encontrar um meio humanizado de intersubjetividade, de comunicação verdadeira, legítima e respeitosa, diminuindo mágoas e melindres. Se tenho dificuldades de vivenciar tal papel de abertura com os "inimigos" diários que criamos em nosso imaginário, pense em aproximações com aqueles desconhecidos que se aproximam de nós de maneiras escusas. Creio que ainda não existam soluções imediatas.
A verdade é que é mais fácil apontar para o externo, identificar os bodes expiatórios e renegar nossa parcela, talvez ainda inconsciente, com o quadro geral de violência. Realmente, do ponto de vista da ação imediata, eu nada fiz contra alguém que furta a casa, por exemplo. Porém, na medida em que compro objetos oriundos de uma economia de quase escravidão com produção de objetos à base de matéria prima contaminada, de alimentação de procedência incerta, que valorizo o trabalho não regulado, que me omito nas questões sócio-político-econômicas, que voto sem reflexão, que faço piadinhas e comentários preconceituosos acerca do outro, que constituo uma cosmovisão limitada aos meus pequenos desejos pessoais e às minhas crenças sacrossantas, que renego o diálogo que confronte meus ideais, eu também contribuo para o estado das coisas como estão.
A forma material como constituimos nossas vidas e a noosfera na qual mergulhamos acriticamente, sao totalmente de nossa responsabilidade. E penso que, ao menos, posso procurar entender a segurança íntima como uma construção pessoal e intransferível; é inalienável o direito de conceber conceitualmente o mundo como eu o queira, não como a mídia determina, não como os preconceitos ditaram. O outro não é meu inimigo, é o meu outro eu que foi se encaminhando por outras veredas e que não teve as mesmas oportunidades nem o bom senso de cavá-las nos limites do possível. Eu poderia tê-lo construído diversamente no meu imaginário e, assim, ter vivido diversamente meus temores; a violência seria lida por mim não como um simples ataque pessoal, mas num contexto complexo de amplo espectro.
Do ponto de vista prático eu sofri, em todos os anos de vida até então, apenas quatro tentativas entre diurnas e noturnas, e ainda assim frustradas, de furto ou algum outro tipo de violência física, o que por si só já me coloca no rol dos sortudos que nada tiveram de prejuízo no âmbito discutido; mas o fato é que eu via, de longe, quando saia da universidade à noite, alunos serem assaltados e, por precaução, além de relatar o fato aos seguranças da instituição, passei a caminhar pelo meio da rua, numa atitude periculosa para mim. Andava rapidamente e com taquicardia quando alguém vinha em minha direção.
Todos os tipos de preconceitos vem à tona quando se esta em situação hipotética de perigo, todos as crenças infundadas, todo o imaginário propalado pela mídia televisiva e jornalística em geral. Vive-se imerso em um imaginário de possíveis tormentos, como numa espera de sua realização.
Depois que vim habitar em colina do Lago di Garda, passei a dormir com janelas abertas, caminhar sozinha por mais de hora por vias ermas durante o dia, e por vias escuras à noite com pessoas da família, sem medo algum. Pois justamente três anos após minha chegada, numa noite em que um familiar não fechou corretamente uma janela da sala, entrou uma pessoa durante a madrugada e levou algum dinheiro, dois computadores e algumas peças de roupas. Ironia do destino e imprevidência do excesso de auto-segurança. Aqui eles pensavam, e eu acreditava, que estávamos no paraíso.
Conclusão, agora eu fiz questão de ferrolhos reforçados nas janelas e estamos implantando sistema de alarme coligado à polícia. Veja só, venho de um país que vive índices elevadíssimos de violência, de uma cidade como Santos que une o crescimento econômico ao aprofundamento da criminalidade, sem nunca ter sofrido um evento real de furto, e acabo num suposto paraíso natural e social onde tenho a casa invadida. Perdi a inocência rsrsrssr
Por aqui, a violência logicamente existe mas era apenas vista pelo noticiário, em cidades grandes, em casos passionais ou na criminalidade sistemática das regiões da Camorra, da Mafia, da Ndrangheta, da Cosa Nostra. Onde moro, o último roubo significativo havia sido em 2000 numa joalheria. Assassinato, nenhum relato recente. Notícias apenas de um amigo da família que viu um vulto pulando a janela mas que nada furtou. Boatos de jovens que furtavam celulares no Valle delle Cartiere.
Duas questões me levaram a escrever hoje, primeiro a insegurança íntima pessoal, em segundo lugar o pensamento acerca do outro, daquele que age contra nós.
Com relação ao primeiro ponto, a insegurança íntima pessoal, penso que devo considerar a condição humana de ser exposto no mundo; o mundo em que vivemos, de sempre, apresenta situações de violência e nenhum de nós está isento de ser atingido por ela; diariamente são guerras, atentados, estupros, roubos, furtos, assassinatos, mas, principalmente, as pequenas violências de uns contra os outros, verbais e gestuais, olhares e comentários, pensamentos escusos. Penso que a violência é um comportamento humano de defesa, um resquício animal da proteção do espaço vital, vi isso por toda a minha vida profissional e familiar; analiso que, pessoalmente, toda violência emitida por mim tem sempre por fundo tal escopo, defender-me. Pretendo preservar meu ego, minhas pequenas e medíocres conquistas íntimas.
Por outro lado, entendo que a violência social gera a violência criminosa. O indivíduo que entrou em casa e se apossou de alguns objetos, tinha a premência de garantir certas necessidades pessoais, assim como meu companheiro se dirige à fábrica para sustentar a família. A diferença entre meu companheiro e o indivíduo que entrou em casa, além de óbvios valores morais, são itens hipotéticos como perspectiva de vida futura, possibilidade de projeto pessoal, educação formal e orientação familiar. Mas, principalmente, uma sociedade organizada que não dá suporte ao desenvolvimento do indivíduo com vistas à sua realização pessoal e dirigido ao Bem Comum, fomenta a violência de toda e qualquer espécie, o que sucede, com certeza, no Brasil e na Itália.
Os primeiros comentários após o furto foram acerca do outro, daquele que agiu contra nós, e foram bem discriminatórios, e isso me fez pensar em como concebemos o outro em nossa vida. Primeiro que ele não agiu contra nós, mas efetuou uma ação que, ao ver dele, era a solução para um encaminhamento de vida, não importava quem seria o prejudicado, bastava ver qual casa tinha as janelas mal fechadas. O "normal" foi culpar o elemento esquecendo que alguém na casa deu sorte para o azar. Segundo que não passou pela cabeça de ninguém que falávamos de uma situação social que se agrava dia a dia por um sistema econômico-social global que gera a massa de desconsiderados que vão cavar, mais cedo ou mais tarde, uma forma de sobrevivência, seja ela adequada, ou não, aos nossos valore morais pessoais.
A verdade é que o outro, o nosso "inimigo", é o irmão em humanidade que não queremos ver, que desejamos seja extirpado e colocado ao largo, o mais longe possível. Eu fugia desse irmão quando dos tempos de trabalho noturno, fujo dele agora na Itália, o Brasil da Europa como dizem alguns alemães.
Uma questão relevante, além de considerar todo o contexto de forja dessa violência sistemática, é, como diz meu filho mais velho, como encontrar o diálogo necessário entre algoz e vítima, entre o eu e o outro, como encontrar um meio humanizado de intersubjetividade, de comunicação verdadeira, legítima e respeitosa, diminuindo mágoas e melindres. Se tenho dificuldades de vivenciar tal papel de abertura com os "inimigos" diários que criamos em nosso imaginário, pense em aproximações com aqueles desconhecidos que se aproximam de nós de maneiras escusas. Creio que ainda não existam soluções imediatas.
A verdade é que é mais fácil apontar para o externo, identificar os bodes expiatórios e renegar nossa parcela, talvez ainda inconsciente, com o quadro geral de violência. Realmente, do ponto de vista da ação imediata, eu nada fiz contra alguém que furta a casa, por exemplo. Porém, na medida em que compro objetos oriundos de uma economia de quase escravidão com produção de objetos à base de matéria prima contaminada, de alimentação de procedência incerta, que valorizo o trabalho não regulado, que me omito nas questões sócio-político-econômicas, que voto sem reflexão, que faço piadinhas e comentários preconceituosos acerca do outro, que constituo uma cosmovisão limitada aos meus pequenos desejos pessoais e às minhas crenças sacrossantas, que renego o diálogo que confronte meus ideais, eu também contribuo para o estado das coisas como estão.
A forma material como constituimos nossas vidas e a noosfera na qual mergulhamos acriticamente, sao totalmente de nossa responsabilidade. E penso que, ao menos, posso procurar entender a segurança íntima como uma construção pessoal e intransferível; é inalienável o direito de conceber conceitualmente o mundo como eu o queira, não como a mídia determina, não como os preconceitos ditaram. O outro não é meu inimigo, é o meu outro eu que foi se encaminhando por outras veredas e que não teve as mesmas oportunidades nem o bom senso de cavá-las nos limites do possível. Eu poderia tê-lo construído diversamente no meu imaginário e, assim, ter vivido diversamente meus temores; a violência seria lida por mim não como um simples ataque pessoal, mas num contexto complexo de amplo espectro.
lunedì 7 aprile 2014
Viver com o necessário.
Estou sem escrever há muito tempo... perdi a vontade e a reencontrei na semana passada quando assisti pelo youtube à entrevista da Adélia Prado no Roda Viva da TV Cultura. Ela tem o poder de me reerguer das cinzas... a simplicidade dela, sua autenticidade, a intensidade com que se entrega e a pura alegria de viver são cativantes... ela ali estava fazendo algo com um empenho e uma espontaneidade comoventes... o seu estar inteira ali era como uma tarefa de resgate de pessoas como eu que se abandonam em si mesmas, esquecendo dos seus ligames com a humanidade... uma atitude egoísta e esmagada pela visão que tive de Adélia Prado... me senti envergonhada de ter abandonado o blog, afinal ele é um meio de expressão e um contato com meus supostos leitores que talvez encontrem, nos meus escritos, qualquer coisa de útil.
Adélia ali, naquele círculo emblemático da intelectualidade brasileira, era toda espírito encarnado como contraposição às firulas, às importâncias que nos damos mutuamente... ela toda era a marca do necessário acima do supérfluo...
Necessário era o escrever, o sentir, o apaixonar-se, o amar, o viver, o entregar-se de corpo e alma em cada tarefa assumida enquanto subjetividade, posicionando-se na medida da sua própria autodescoberta e desvelamento significativo do mundo.
E, daí, eu pensei nas necessidades de que revisto minha vida e as das pessoas que para mim importam sobremaneira, percebendo que o que me une à elas e o que as faz serem especiais para mim é que a simplicidade é um critério marcante pras escolhas das prioridades cotidianas e dos projetos de vida de todas e de cada uma.
Viver com o necessário é fundamental. Claro que há uma variação enorme de critérios para definir o que é necessário para cada pessoa, porém, em geral, é a garantia de não exceder, de buscar qualidade, adequação e atentar para os móveis que fundamentam aquisições e ocupação de tempo.
Fazendo essa reflexão eu me dei conta de quanto eu ainda preciso redirecionar minha vida e aprofundar os argumentos para realmente empreender uma existência com base apenas no necessário.
Os excessos se dão nas palavras, nos comportamentos gestuais, nos momentos de descanso e ociosidade, na alimentação, na teorização.
Quero ser, como disse em texto passado, um traço japonês, pleno de significado e manifesto na economia da simplicidade.
Adélia era toda transbordamento sem excessos. Tudo naquela entrevista era na justa medida e na intensidade de quem vive já na mais pura expressão daquilo que escolhe ser. Na medida da possível coerência que a precariedade humana permite. Quando eu crescer como consciência quero ser assim, gente como ela.
Adélia ali, naquele círculo emblemático da intelectualidade brasileira, era toda espírito encarnado como contraposição às firulas, às importâncias que nos damos mutuamente... ela toda era a marca do necessário acima do supérfluo...
Necessário era o escrever, o sentir, o apaixonar-se, o amar, o viver, o entregar-se de corpo e alma em cada tarefa assumida enquanto subjetividade, posicionando-se na medida da sua própria autodescoberta e desvelamento significativo do mundo.
E, daí, eu pensei nas necessidades de que revisto minha vida e as das pessoas que para mim importam sobremaneira, percebendo que o que me une à elas e o que as faz serem especiais para mim é que a simplicidade é um critério marcante pras escolhas das prioridades cotidianas e dos projetos de vida de todas e de cada uma.
Viver com o necessário é fundamental. Claro que há uma variação enorme de critérios para definir o que é necessário para cada pessoa, porém, em geral, é a garantia de não exceder, de buscar qualidade, adequação e atentar para os móveis que fundamentam aquisições e ocupação de tempo.
Fazendo essa reflexão eu me dei conta de quanto eu ainda preciso redirecionar minha vida e aprofundar os argumentos para realmente empreender uma existência com base apenas no necessário.
Os excessos se dão nas palavras, nos comportamentos gestuais, nos momentos de descanso e ociosidade, na alimentação, na teorização.
Quero ser, como disse em texto passado, um traço japonês, pleno de significado e manifesto na economia da simplicidade.
Adélia era toda transbordamento sem excessos. Tudo naquela entrevista era na justa medida e na intensidade de quem vive já na mais pura expressão daquilo que escolhe ser. Na medida da possível coerência que a precariedade humana permite. Quando eu crescer como consciência quero ser assim, gente como ela.
martedì 24 dicembre 2013
Bom Natal e Próspero Ano Novo de 2014! Buon Natale e Felice Anno Nuovo 2014!
Queridos e amados,
Feliz Natal e Próspero Ano Novo de 2014!
Meus desejos de paz, amor e equilíbrio harmonioso, para agora e sempre, estão expressos em muitas músicas do Beto Guedes.
Tudo que existe foi pensado, sentido, repetido... pensemos coisas novas e maravilhosas, sintamos em nossos corações os sinais de um mundo novo que, se pode ser sonhado, pode ser realizado.
Nao nos cansemos jamais da verdade e do amor...
Um doce beijo em seus doces corações.
Da companheira de viagens pelos evos que, em sua precária humanidade, os ama profundamente.
mh
Carissimi,
Buon Natale e Felice Anno Nuovo 2014!
I miei auguri di pace, amore e armonioso equilibrio, per ora e sempre, sono espressi in molte canzoni da Beto Guedes.
Tutto ciò che esiste è pensato, sentito, ripetuto ... pensare a cose nuove e meravigliose, sentiamo nei nostri cuori i segni di un mondo nuovo che, si può essere sognato, si può fare.
Non bisogna mai stancarsi di verità e di amore ...
Un bacio dolce sulle sue dolci cuori.
La sua compagna di viaggio da eoni che nella sua umanità precaria, li amano profondamente.
mh
venerdì 2 agosto 2013
A dor e a delícia de ser o que sou
Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é... a nossa maneira própria de manifestação na vida, no mundo, no nosso contexto de relação, revela nossas mazelas e nossas qualidades especiais... e sabemos exatamente o que promovemos de bem e de mal, à nos mesmos e aos nossos partilhantes de vida.
Em vários momentos da juventude tive que ouvir que só um psicólogo daria um jeito em mim... obviamente aqueles que proferiam esse argumento não me aguentavam mais... e eu pouco me aguentei por toda a vida consciente... resisti o que pude porque não podia nem imaginar que uma outra pessoa penetrasse no meu íntimo e me visse tal qual sou... como um outro ser humano, tão humanamente impregnado de problemas como qualquer outro poderia me ajudar????... de maneira contraditória, sempre me expus excessivamente deixando minha vida privada no imaginário dos meus expectadores, especialmente meus alunos e colegas de trabalho, além de familiares... mas porque eu sabia que expunha o que desejava, da maneira que eu queria e com intuitos muito claros para mim...
Um filho meu em idade muito tenra necessitou de acompanhamento psicológico e no momento que o diagnóstico sugeriu que eu fosse com toda a família para o divã eu enfureci, evidentemente não fui e nem incentivei a família a se encaminhar...
Quando esse mesmo filho voltou ao consultório psicológico na puberdade, aí fui novamente convocada e relutantemente compareci; resisti muito às intervenções reflexivas do profissional que a mim pareceu extremamente invasivo.
Ao terminar meu mestrado aos 36 anos, estava um caco, saturada de estresse, insatisfação e baixa auto estima. Já havia terminado filosofia aos 33 anos e muitas leituras e discussões reflexivas haviam forçado a fortaleza de preconceitos e temores, e aí, por uma questão de sobrevivência, acabei por procurar um auxílio psicológico. Não aguentei: ao tocar em questões difíceis de encarar, fugi desesperadamente e após seis meses já havia abandonado o tratamento.
Outro filho meu, quando da minha vinda para a Itália, resolveu buscar um atendimento psicológico para pensar melhor suas dificuldades pessoais bem como entender minha atitude de viver longe de tudo e de todos, cortando radicalmente os laços com uma vida anterior sólida e estruturada.
E eu, agora, com 49 anos, rendida pelo cenário da minha glória e destruição pessoal, resolvi finalmente me enfronhar em mim mesma. Tive total apoio dos meus filhos e do meu companheiro italiano.
Hoje estou no terceiro mês de uma psicoterapia por skype com um psicólogo brasileiro. Eu o escolhi segundo o critério para mim essencial: abertura para a dimensão espiritual do homem, reconhecimento da possibilidade da reencarnação do espírito, concepção do homem como ser multidimensional e aceitação de tratamentos alternativos e inovadores, tudo isso embasado em estudos e reflexões aprofundados.
Estou forçando a minha própria auto-observação, procurando móveis e alvos dos meus pensamentos, das minhas emoções e ações reativas. Enfrentando meus preconceitos sobre mim mesma e sobre os outros.
Diferentemente do que me diziam quando era jovem, "só um psicólogo pode dar um jeito em você", hoje sei que nenhum psicólogo pode dar um jeito em pessoa alguma. No máximo o profissional pode ser um companheiro de viagem, uma pessoa que lhe dê uns toques, que ilumine alguns pontos revelados por você por sua fala, seus trejeitos, suas crenças, suas emoções... Uma psicoterapia é um convite ao crescimento, à aceitação, compreensão e superação dos mecanismos de defesa, da prisão ao passado, da ansiedade pelo futuro... a psicoterapia tem me ajudado a focalizar o aqui e o agora em que me manifesto mental, emocional e fisicamente...
Saber a dor e a delícia de ser o que sou é o ponto de partida para entender melhor porque sou como sou, porque ajo e reajo mediante o confronto com o outro. Consciente dos mecanismos que se constituíram em hábitos de reação poderei reflexivamente repensar minhas crenças pessoais e fundadoras dos meus atos.
A vida continuará tal qual é, com problemas e dificuldades, mas se eu aprender novas maneiras de me manifestar eu reagirei diversamente com consciência e, com certeza, as dores e as delícias de ser quem eu sou serão apenas uma constatação e não um martírio.
Em vários momentos da juventude tive que ouvir que só um psicólogo daria um jeito em mim... obviamente aqueles que proferiam esse argumento não me aguentavam mais... e eu pouco me aguentei por toda a vida consciente... resisti o que pude porque não podia nem imaginar que uma outra pessoa penetrasse no meu íntimo e me visse tal qual sou... como um outro ser humano, tão humanamente impregnado de problemas como qualquer outro poderia me ajudar????... de maneira contraditória, sempre me expus excessivamente deixando minha vida privada no imaginário dos meus expectadores, especialmente meus alunos e colegas de trabalho, além de familiares... mas porque eu sabia que expunha o que desejava, da maneira que eu queria e com intuitos muito claros para mim...
Um filho meu em idade muito tenra necessitou de acompanhamento psicológico e no momento que o diagnóstico sugeriu que eu fosse com toda a família para o divã eu enfureci, evidentemente não fui e nem incentivei a família a se encaminhar...
Quando esse mesmo filho voltou ao consultório psicológico na puberdade, aí fui novamente convocada e relutantemente compareci; resisti muito às intervenções reflexivas do profissional que a mim pareceu extremamente invasivo.
Ao terminar meu mestrado aos 36 anos, estava um caco, saturada de estresse, insatisfação e baixa auto estima. Já havia terminado filosofia aos 33 anos e muitas leituras e discussões reflexivas haviam forçado a fortaleza de preconceitos e temores, e aí, por uma questão de sobrevivência, acabei por procurar um auxílio psicológico. Não aguentei: ao tocar em questões difíceis de encarar, fugi desesperadamente e após seis meses já havia abandonado o tratamento.
Outro filho meu, quando da minha vinda para a Itália, resolveu buscar um atendimento psicológico para pensar melhor suas dificuldades pessoais bem como entender minha atitude de viver longe de tudo e de todos, cortando radicalmente os laços com uma vida anterior sólida e estruturada.
E eu, agora, com 49 anos, rendida pelo cenário da minha glória e destruição pessoal, resolvi finalmente me enfronhar em mim mesma. Tive total apoio dos meus filhos e do meu companheiro italiano.
Hoje estou no terceiro mês de uma psicoterapia por skype com um psicólogo brasileiro. Eu o escolhi segundo o critério para mim essencial: abertura para a dimensão espiritual do homem, reconhecimento da possibilidade da reencarnação do espírito, concepção do homem como ser multidimensional e aceitação de tratamentos alternativos e inovadores, tudo isso embasado em estudos e reflexões aprofundados.
Estou forçando a minha própria auto-observação, procurando móveis e alvos dos meus pensamentos, das minhas emoções e ações reativas. Enfrentando meus preconceitos sobre mim mesma e sobre os outros.
Diferentemente do que me diziam quando era jovem, "só um psicólogo pode dar um jeito em você", hoje sei que nenhum psicólogo pode dar um jeito em pessoa alguma. No máximo o profissional pode ser um companheiro de viagem, uma pessoa que lhe dê uns toques, que ilumine alguns pontos revelados por você por sua fala, seus trejeitos, suas crenças, suas emoções... Uma psicoterapia é um convite ao crescimento, à aceitação, compreensão e superação dos mecanismos de defesa, da prisão ao passado, da ansiedade pelo futuro... a psicoterapia tem me ajudado a focalizar o aqui e o agora em que me manifesto mental, emocional e fisicamente...
Saber a dor e a delícia de ser o que sou é o ponto de partida para entender melhor porque sou como sou, porque ajo e reajo mediante o confronto com o outro. Consciente dos mecanismos que se constituíram em hábitos de reação poderei reflexivamente repensar minhas crenças pessoais e fundadoras dos meus atos.
A vida continuará tal qual é, com problemas e dificuldades, mas se eu aprender novas maneiras de me manifestar eu reagirei diversamente com consciência e, com certeza, as dores e as delícias de ser quem eu sou serão apenas uma constatação e não um martírio.
mercoledì 8 maggio 2013
Construção de novas capacidades e novos instrumentos
Passei toda a vida me aprimorando na minha tarefa primeira de professora, estudando formalmente por quase todo o percurso, com objetivos bem definidos. Não consegui chegar ao término em perfeição, afinal o ser humano é um ser em constante construção, assim como aquilo para o qual se dedica também está sempre em contínua elaboração.
Porém, no momento em que decidi finalizar a minha profissão enquanto exercício regular, não abdiquei da minha tarefa de orientadora ou colaboradora para qualquer um que me procurasse para lhe acompanhar nos estudos ou no seu aprimoramento pessoal. Creio firmemente que todos nós necessitamos de apoio e um diálogo reflexivo com alguém que nos instigue a avaliar sobre nosso desempenho pessoal e profissional, para que possamos reencetar nosso caminho guiados por novos parâmetros.
Eu decidi me dedicar mais à minha constituição como ser integral e multidimensional, como ser interexistencial, e aí me deparei com o óbvio, não tinha instrumentos suficientes nem capacidades desenvolvidas que me permitissem vivenciar a realidade ampliada que reconhecia na minha existência.
Estou convicta de que devemos estreitar consideravelmente nossos vínculos com os planos dimensionais que nos cercam... a poucos centímetros estamos de outras realidades desconhecidas por nós, que só podem ser acessadas se aprimorarmos nossos veículos de manifestação, especialmente no que tange às energias comandadas por nossa mente.
Além disso, se temos dificuldades de reconhecimento e aceitação na convivência com diferenças no cotidiano, como poderíamos ter uma boa consideração dos seres que nos rodeiam e têm origens diferentes das nossas, ou ao menos ancestrais às nossas, sejam encarnados ou etéreos?
Há também o aspecto de que o maior número de informações e conhecimentos construídos reflexivamente nos permitirão criar referências de pensamento para identificar e reconhecer as novas realidades acessadas, afinal, como diz Cris de Paschoal do Grupo Kroon, aquilo que não se pode pensar não se pode ver, uma questão basicamente fenomenológica.
A minha dificuldade em escrever ultimamente está justamente nessa situação de estar tentando construir novos elementos que me permitam ser capaz em novas tarefas que exigem novos instrumentos. Por exemplo: não posso mais imaginar a educação de crianças, jovens e adultos sem pensar na condição holística de suas existências ecológicas no mundo visível e no entorno invisível. Não posso mais pensar apenas em políticas públicas para a educação, tenho que pensar em estender minha visão para os objetivos de desenvolvimento planetário em termos espirituais para todos e para cada um. Não consigo mais trabalhar apenas para colocar um jovem no mercado de trabalho sabendo que em jogo está a sua própria realização como alguém que tem que aprimorar sua condição de ser inteligente e integrante de um todo incomensurável.
Como calar sobre a realidade de que nossos queridos do coração que já partiram continuam a tentar se comunicar conosco e que muitos têm se dedicado a construir tais pontes de comunicação? Como trabalhar para um mundo com valores tao carcomidos e tão sem objetivos profundos e significativos para uma existência prévia à encarnação atual e a continuidade da vida após a dessoma dos corpos densos?
Eu não posso.
Agora, é encarar a realidade de que estou sem recursos para encetar novas tarefas, e esse é o meu objetivo para ter uma vida mais coerente, significativa e que esvaneça a separação entre o aqui e o aqui, que antes eram o aqui e o lá.
Minhas buscas têm caráter universalista e vão amealhando pequenos detalhes que eu componho como uma tessitura com a minha própria marca, meu próprio estilo. Não creio em fórmulas da felicidade, nem em extremistas atitudes de caráter religioso que pretendam substituir minha própria reflexão pessoal. Eu tenho que ser meu próprio construtor, com as ferramentas escolhidas por mim, num processo de contínua descoberta e de ressignificação de valores em situações similares, sempre em contato e relação com o outro que me dimensiona e retorna a imagem da minha efetiva intervenção no mundo.
Daí que busco novos instrumentos para a construção de novas capacidades nas religiões e na ciência, nos ensinamentos de avatares, na observação da minha própria reação ao ambiente e às pessoas do entorno, na cuidadosa atenção à mudança das minhas energias e dos focos de sua localização, na relação estreita entre meus pensamentos, meu humor e as minhas reações, nos efeitos da meditação, da oração e do trabalho com os chacras, nos sonhos e nas projeções semi-conscientes, na invocação dos vínculos com amparadores espirituais.
O Espiritismo, as filosofias religiosas ou não que se coadunem com o espiritualismo de vertente universalista cristã, aspectos da Teosofia, ufologia esotérica, projeciologia e conscienciologia, poesia e literatura, música e artes plásticas, são meus mananciais de estudo, tudo como um mosaico de partes superficialmente diferentes que compõem uma imagem única de fundo e que vão pouco a pouco revelando-se na linguagem de uma ciência que chega a passos largos a comprovar verdades divulgadas esotericamente até o século XIX e que daí em diante se tornaram abertas a todo aquele que se disponha a procurá-las.
Procuro criticamente relacionar as informações encontradas com as minhas próprias experiências pessoais, e o que encontro como identificação recorrente, uso para a construção paulatina de verdades provisórias. Emmanuel e André Luiz pela psicografia de Chico Xavier, Pietro Ubaldi, Parábolas do Evangelho de Jesus, falas de Divaldo Pereira Franco, Marlene Nobre, Carlos Baccelli, Cris De Paschoal do Grupo Kroon, Sonia Rinaldi, Waldo Vieira da Conscienciologia, Saulo Calderon do GVA, Monica de Medeiros e muitos outros, enfim, todo aquele que com seu grupo de estudos ofereça informações para serem abalizadas por mim, são minhas fontes de referências.
Minha referência constante é o filme Nosso Lar, no qual o personagem André Luiz penetra o mundo espiritual, após dessomado, sem qualidades e habilidades que lhe permitam dar continuidade a uma vida útil e colaborativa de aperfeiçoamento pessoal e associado. Uma das experiências mais importantes e fatais, como a morte, nos colocarão em contato com nossas imensas deficiências, para a qual a vida terrena deveria contribuir efetivamente. Perante um mundo de realidades mais complexas há que se ter uma mínima competência para ali veicular.
Creio firmemente quem sem essa agregação de novas experiências reflexivas de aprendizado, minha atual encarnação seria extremamente restrita ao atendimento às expectativas de um mundo meramente materialista, individualista e venal, distante das reais intenções de evolução e aperfeiçoamento do ser integral de que me constituo. A vida ordinária não nos permite construir os instrumentos fundamentais para o surgimento de novas capacidades que nos permitam ultrapassar os objetivos comuns, então, que eu e cada um assuma a tarefa exclusiva de se autoconstituir de maneira unica e original em comunhão com o fluxo de desenvolvimento e expansão dos universos.
Porém, no momento em que decidi finalizar a minha profissão enquanto exercício regular, não abdiquei da minha tarefa de orientadora ou colaboradora para qualquer um que me procurasse para lhe acompanhar nos estudos ou no seu aprimoramento pessoal. Creio firmemente que todos nós necessitamos de apoio e um diálogo reflexivo com alguém que nos instigue a avaliar sobre nosso desempenho pessoal e profissional, para que possamos reencetar nosso caminho guiados por novos parâmetros.
Eu decidi me dedicar mais à minha constituição como ser integral e multidimensional, como ser interexistencial, e aí me deparei com o óbvio, não tinha instrumentos suficientes nem capacidades desenvolvidas que me permitissem vivenciar a realidade ampliada que reconhecia na minha existência.
Estou convicta de que devemos estreitar consideravelmente nossos vínculos com os planos dimensionais que nos cercam... a poucos centímetros estamos de outras realidades desconhecidas por nós, que só podem ser acessadas se aprimorarmos nossos veículos de manifestação, especialmente no que tange às energias comandadas por nossa mente.
Além disso, se temos dificuldades de reconhecimento e aceitação na convivência com diferenças no cotidiano, como poderíamos ter uma boa consideração dos seres que nos rodeiam e têm origens diferentes das nossas, ou ao menos ancestrais às nossas, sejam encarnados ou etéreos?
Há também o aspecto de que o maior número de informações e conhecimentos construídos reflexivamente nos permitirão criar referências de pensamento para identificar e reconhecer as novas realidades acessadas, afinal, como diz Cris de Paschoal do Grupo Kroon, aquilo que não se pode pensar não se pode ver, uma questão basicamente fenomenológica.
A minha dificuldade em escrever ultimamente está justamente nessa situação de estar tentando construir novos elementos que me permitam ser capaz em novas tarefas que exigem novos instrumentos. Por exemplo: não posso mais imaginar a educação de crianças, jovens e adultos sem pensar na condição holística de suas existências ecológicas no mundo visível e no entorno invisível. Não posso mais pensar apenas em políticas públicas para a educação, tenho que pensar em estender minha visão para os objetivos de desenvolvimento planetário em termos espirituais para todos e para cada um. Não consigo mais trabalhar apenas para colocar um jovem no mercado de trabalho sabendo que em jogo está a sua própria realização como alguém que tem que aprimorar sua condição de ser inteligente e integrante de um todo incomensurável.
Como calar sobre a realidade de que nossos queridos do coração que já partiram continuam a tentar se comunicar conosco e que muitos têm se dedicado a construir tais pontes de comunicação? Como trabalhar para um mundo com valores tao carcomidos e tão sem objetivos profundos e significativos para uma existência prévia à encarnação atual e a continuidade da vida após a dessoma dos corpos densos?
Eu não posso.
Agora, é encarar a realidade de que estou sem recursos para encetar novas tarefas, e esse é o meu objetivo para ter uma vida mais coerente, significativa e que esvaneça a separação entre o aqui e o aqui, que antes eram o aqui e o lá.
Minhas buscas têm caráter universalista e vão amealhando pequenos detalhes que eu componho como uma tessitura com a minha própria marca, meu próprio estilo. Não creio em fórmulas da felicidade, nem em extremistas atitudes de caráter religioso que pretendam substituir minha própria reflexão pessoal. Eu tenho que ser meu próprio construtor, com as ferramentas escolhidas por mim, num processo de contínua descoberta e de ressignificação de valores em situações similares, sempre em contato e relação com o outro que me dimensiona e retorna a imagem da minha efetiva intervenção no mundo.
Daí que busco novos instrumentos para a construção de novas capacidades nas religiões e na ciência, nos ensinamentos de avatares, na observação da minha própria reação ao ambiente e às pessoas do entorno, na cuidadosa atenção à mudança das minhas energias e dos focos de sua localização, na relação estreita entre meus pensamentos, meu humor e as minhas reações, nos efeitos da meditação, da oração e do trabalho com os chacras, nos sonhos e nas projeções semi-conscientes, na invocação dos vínculos com amparadores espirituais.
O Espiritismo, as filosofias religiosas ou não que se coadunem com o espiritualismo de vertente universalista cristã, aspectos da Teosofia, ufologia esotérica, projeciologia e conscienciologia, poesia e literatura, música e artes plásticas, são meus mananciais de estudo, tudo como um mosaico de partes superficialmente diferentes que compõem uma imagem única de fundo e que vão pouco a pouco revelando-se na linguagem de uma ciência que chega a passos largos a comprovar verdades divulgadas esotericamente até o século XIX e que daí em diante se tornaram abertas a todo aquele que se disponha a procurá-las.
Procuro criticamente relacionar as informações encontradas com as minhas próprias experiências pessoais, e o que encontro como identificação recorrente, uso para a construção paulatina de verdades provisórias. Emmanuel e André Luiz pela psicografia de Chico Xavier, Pietro Ubaldi, Parábolas do Evangelho de Jesus, falas de Divaldo Pereira Franco, Marlene Nobre, Carlos Baccelli, Cris De Paschoal do Grupo Kroon, Sonia Rinaldi, Waldo Vieira da Conscienciologia, Saulo Calderon do GVA, Monica de Medeiros e muitos outros, enfim, todo aquele que com seu grupo de estudos ofereça informações para serem abalizadas por mim, são minhas fontes de referências.
Minha referência constante é o filme Nosso Lar, no qual o personagem André Luiz penetra o mundo espiritual, após dessomado, sem qualidades e habilidades que lhe permitam dar continuidade a uma vida útil e colaborativa de aperfeiçoamento pessoal e associado. Uma das experiências mais importantes e fatais, como a morte, nos colocarão em contato com nossas imensas deficiências, para a qual a vida terrena deveria contribuir efetivamente. Perante um mundo de realidades mais complexas há que se ter uma mínima competência para ali veicular.
Creio firmemente quem sem essa agregação de novas experiências reflexivas de aprendizado, minha atual encarnação seria extremamente restrita ao atendimento às expectativas de um mundo meramente materialista, individualista e venal, distante das reais intenções de evolução e aperfeiçoamento do ser integral de que me constituo. A vida ordinária não nos permite construir os instrumentos fundamentais para o surgimento de novas capacidades que nos permitam ultrapassar os objetivos comuns, então, que eu e cada um assuma a tarefa exclusiva de se autoconstituir de maneira unica e original em comunhão com o fluxo de desenvolvimento e expansão dos universos.
martedì 26 marzo 2013
Profeta de si mesmo
Li, há muito tempo atrás, um texto de Eduardo Galeano, A história é um profeta com o olhar voltado para trás. A ideia de Galeano se aproxima da concepção corrente de que a profecia fala de um tempo vindouro, porém, para ele, não se trata de adivinhação, mas de que a história não é um mero rememorar, um registro do que sucedeu, mas é o estudo cuidadoso do que sucedeu para apontar os caminhos que devemos seguir. A história não é a realização de um projeto externo à ação do homem, mas é a construção consciente de quem, sabendo das mazelas e conquistas, escolhe caminhos e estratégias. Ou seja, a profecia realiza aquilo que escolhemos. Então quem observa o futuro e indica possibilidades de acontecimentos, só os visualiza porque conhece os caminhos percorridos até então.
O futuro está em nossas mãos, então, visões deterministas que enfeixam o amanhã num prognóstico fechado, não me interessam. Creio, firmemente, que se conhecermos ao máximo nossa própria história pregressa, poderemos com mais segurança dar os próximos passos em nossa vidas. E nem precisa de regressão de memória, penso que basta observarmos nossa própria conduta, pensamentos e reações ao longo do tempo. Vou fazendo uma anamnese a partir dos relatos familiares, das fotografias de sempre, das minhas atitudes, das pequenas às grandes, tudo fala, grita, ecoa quem sou. E daí não é muito difícil profetizar o que sucederá adiante.
Uso também o recurso de mapa astral, taróloga e terapia psicológica, mas em verdade, eu mesma é que sou o meu melhor prescrutador. Tudo auxilia, desde que se queira realmente se conhecer.
As ideias que proferimos são como profecias, são o desejo mais íntimo do que gostaríamos de ser. Somos sempre melhores em nossas falas, em nossas defesas de ideais. Há uma distância considerável entre o que somos e o que queremos ser. Mas de qualquer maneira, profetizar sobre nós mesmos é uma oportunidade de idealizarmos um eu melhor, de projetarmos uma superação das limitações presentes, de acreditar que podemos avançar em progressão.
Penso que o profetizar deve ter uma ambivalência. Em análises calcadas nos nossos erros pregressos e nas indicações que o autoconhecimento permite, podemos nos visualizar no futuro com marcas e eventos péssimos e que nos depreciam, mas ao mesmo tempo, fortalecendo os aspectos bons e agradáveis, podemos programar um percurso que nos permita ir pouco a pouco transformando o que não atende ao nosso desejo em elementos de aprendizado sobre o que não fazer, o que evitar. Assim o erro adquire uma característica educativa, e se torna um grande aliado. Conhecer nossas mazelas nos fortalece para criar novas propostas de como nos conduzirmos na vida.
Profetizar nao é expressar determinismos, mas é apontar possibilidades, e se elas são negativas, o que temos a fazer é urgentemente empreender uma proposta de superação, de novas realizações. Por exemplo, se eu como desmesuradamente, se fumo, se bebo excessivamente, posso profetizar um futuro amargo em termos de saúde física, então, em vez de resignação, o que se pede é uma mudança radical no proceder com meu corpo.
Não é tarefa simples nem de alcance imediato, mas ser profeta de si mesmo talvez seja a grande tarefa de nós para conosco.
O futuro está em nossas mãos, então, visões deterministas que enfeixam o amanhã num prognóstico fechado, não me interessam. Creio, firmemente, que se conhecermos ao máximo nossa própria história pregressa, poderemos com mais segurança dar os próximos passos em nossa vidas. E nem precisa de regressão de memória, penso que basta observarmos nossa própria conduta, pensamentos e reações ao longo do tempo. Vou fazendo uma anamnese a partir dos relatos familiares, das fotografias de sempre, das minhas atitudes, das pequenas às grandes, tudo fala, grita, ecoa quem sou. E daí não é muito difícil profetizar o que sucederá adiante.
Uso também o recurso de mapa astral, taróloga e terapia psicológica, mas em verdade, eu mesma é que sou o meu melhor prescrutador. Tudo auxilia, desde que se queira realmente se conhecer.
As ideias que proferimos são como profecias, são o desejo mais íntimo do que gostaríamos de ser. Somos sempre melhores em nossas falas, em nossas defesas de ideais. Há uma distância considerável entre o que somos e o que queremos ser. Mas de qualquer maneira, profetizar sobre nós mesmos é uma oportunidade de idealizarmos um eu melhor, de projetarmos uma superação das limitações presentes, de acreditar que podemos avançar em progressão.
Penso que o profetizar deve ter uma ambivalência. Em análises calcadas nos nossos erros pregressos e nas indicações que o autoconhecimento permite, podemos nos visualizar no futuro com marcas e eventos péssimos e que nos depreciam, mas ao mesmo tempo, fortalecendo os aspectos bons e agradáveis, podemos programar um percurso que nos permita ir pouco a pouco transformando o que não atende ao nosso desejo em elementos de aprendizado sobre o que não fazer, o que evitar. Assim o erro adquire uma característica educativa, e se torna um grande aliado. Conhecer nossas mazelas nos fortalece para criar novas propostas de como nos conduzirmos na vida.
Profetizar nao é expressar determinismos, mas é apontar possibilidades, e se elas são negativas, o que temos a fazer é urgentemente empreender uma proposta de superação, de novas realizações. Por exemplo, se eu como desmesuradamente, se fumo, se bebo excessivamente, posso profetizar um futuro amargo em termos de saúde física, então, em vez de resignação, o que se pede é uma mudança radical no proceder com meu corpo.
Não é tarefa simples nem de alcance imediato, mas ser profeta de si mesmo talvez seja a grande tarefa de nós para conosco.
lunedì 25 marzo 2013
Guru, o dissipador de trevas ?
Assistindo alguns vídeos do Grupo Rama, associação que tem como meta a preparação para uma nova etapa de vida humana, encontrei em alguma fala a expressão acima, "guru, o dissipador de trevas", não como defesa da literalidade da frase, mas como uma crítica àqueles que esperam alguém que os guie para a iluminação.
Gurus, guias, mentores, ãao sempre importantes nas nossas vidas, desde que fiquem no seu papel de iluminadores de caminhos, que apontem possibilidades, que nos acompanhem na caminhada, mas sem fazer por nós o que nos cabe e sem nos poupar de nossas próprias escolhas equivocadas.
Como Krishnamurthy pregava a iluminação como um caminho pessoal e intransferível, eu também penso que a tarefa não pode ser partilhada; porém, se para alguns espiritualistas, a busca deve ser solitária eu penso que as muletas são necessárias até um certo ponto, até o momento em que já possamos seguir em frente com um conhecimento próprio e domínio da expressão do nosso próprio eu em consonância com o Eu Superior. Até lá, me desculpem os grandes pensadores espiritualistas que atribuem à pessoa a construção solitária do próprio caminho, independente de outras fontes de informação, mas penso que um guru, um guia, um mentor, é uma muleta inicial, uma verdade provisória que auxilie a dar os primeiros passos. Como uma criança que para se erguer se apóia nos móveis, nas pernas e nas mãos dos adultos. Depois, por si só, caminha segura definindo o próprio alvo.
A atitude correta, penso eu, é a de ouvir os mestres, considerar seus ensinamentos, mas no momento da judicação, da consideração da pertinência de suas palavras, abalizar as informações com nossas próprias experiências e ouvir a voz interna que nos faculta agregá-las ou não ao nosso proceder.
Percebo bem isso ao analisar meus percursos profissional e pessoal, em ambos tendo eu, em várias etapas da vida, a interferência de outras consciências em minhas escolhas e na constituição da manifestação do meu eu inferior, com minha anuência consciente dentro do espectro de lucidez que eu tinha no momento. Após tais influências densas cessarem e serem substituídas por outras, então mais fluidas, percebo que no transcorrer da vida no tempo, alguma liberdade mais ampla foi se manifestando, como alguém que tendo os movimentos comprometidos, esteve engessado, depois caminhou com muletas, e que ao final, bastaria uma mão segura que acompanhasse os passos. Visualizo para o meu futuro, um caminhar pessoal e livre, com pessoas para partilhar as experiências, mas não para realizar por mim a tarefa intransferível de autoiluminação.
Tenho em mente duas personagem sobre o entendimento da tarefa do guru.
A primeira é a Palas Athena da Odisséia de Homero, encaminhando Telêmaco para a vida, sem dizer o que fazer, mas sugerindo possibilidades, incutindo a fé em si mesmo e a força e a coragem de arrostar as dificuldades, a transcender a condição atual de dependência e limitação de horizontes, para a expansão da expressão do eu como alguém potente e inovador no próprio caminho.
A segunda coisa que me vem à mente, é o novo Papa, Francesco. Não sendo católica, a influência do Papa Bergoglio sobre mim não é fundamental, mas, tendo em consideração a quantidade de fiéis da Igreja Católica no planeta, vejo como importante a figura de um líder religioso que ofereça um novo paradigma de atuação e prática cristã para o homem contemporâneo. O gesto, a demonstração dos ideais dos quais é imbuído, valem mais do que discursos, ainda que sejam considerados importantes manifestos públicos de intenções e políticas. Apresentar uma conduta cristã que reforce a mensagem do Cristo: simplicidade, alegria, confiança, esperança e solidariedade.
Gurus, guias, mentores, são assim, pessoas que na sua forma de viver nos oferecem alternativas para repensarmos a condução de nossas vidas, sem que devamos segui-los cegamente ou reproduzirmos suas formas e maneiras de se posicionarem frente a vida. Essas figuras espiritualizadas que nos inspiram, deixam à todos estupefatos, justamente porque agem de maneira mais adequada às leis universais de solidariedade, de auxílio discreto, de felicidade interior. Fazem o que deveria ser normal, e, num mundo de desequilíbrios e desvios práticos dos ideais de Bem, Verdade, Justiça e Virtudes, são interpretados como excepcionais quando deveriam ser a regra.
Gurus, sao dissipadores de trevas? Sim e não. Sim porque iluminam veredas e nos fazem perceber que há algo de muito simples a ser feito e que nos parecia inexequível a um primeiro olhar. Mas não serão dissipadores de trevas se não estabelecermos uma mínima condição de intersubjetividade, ou seja, de comunicação em que algo que eles manifestem cale dentro de nós.
Sem gurus, muitos de nós não teríamos sequer vislumbrado uma nova forma de interpretar, de conceber a vida humana, e, com certeza, não devem ser endeusados nem cegamente seguidos, mas considerados na sua divina tarefa de nos reconectar conosco mesmos para a nossa própria autoiluminação.
Gurus, guias, mentores, ãao sempre importantes nas nossas vidas, desde que fiquem no seu papel de iluminadores de caminhos, que apontem possibilidades, que nos acompanhem na caminhada, mas sem fazer por nós o que nos cabe e sem nos poupar de nossas próprias escolhas equivocadas.
Como Krishnamurthy pregava a iluminação como um caminho pessoal e intransferível, eu também penso que a tarefa não pode ser partilhada; porém, se para alguns espiritualistas, a busca deve ser solitária eu penso que as muletas são necessárias até um certo ponto, até o momento em que já possamos seguir em frente com um conhecimento próprio e domínio da expressão do nosso próprio eu em consonância com o Eu Superior. Até lá, me desculpem os grandes pensadores espiritualistas que atribuem à pessoa a construção solitária do próprio caminho, independente de outras fontes de informação, mas penso que um guru, um guia, um mentor, é uma muleta inicial, uma verdade provisória que auxilie a dar os primeiros passos. Como uma criança que para se erguer se apóia nos móveis, nas pernas e nas mãos dos adultos. Depois, por si só, caminha segura definindo o próprio alvo.
A atitude correta, penso eu, é a de ouvir os mestres, considerar seus ensinamentos, mas no momento da judicação, da consideração da pertinência de suas palavras, abalizar as informações com nossas próprias experiências e ouvir a voz interna que nos faculta agregá-las ou não ao nosso proceder.
Percebo bem isso ao analisar meus percursos profissional e pessoal, em ambos tendo eu, em várias etapas da vida, a interferência de outras consciências em minhas escolhas e na constituição da manifestação do meu eu inferior, com minha anuência consciente dentro do espectro de lucidez que eu tinha no momento. Após tais influências densas cessarem e serem substituídas por outras, então mais fluidas, percebo que no transcorrer da vida no tempo, alguma liberdade mais ampla foi se manifestando, como alguém que tendo os movimentos comprometidos, esteve engessado, depois caminhou com muletas, e que ao final, bastaria uma mão segura que acompanhasse os passos. Visualizo para o meu futuro, um caminhar pessoal e livre, com pessoas para partilhar as experiências, mas não para realizar por mim a tarefa intransferível de autoiluminação.
Tenho em mente duas personagem sobre o entendimento da tarefa do guru.
A primeira é a Palas Athena da Odisséia de Homero, encaminhando Telêmaco para a vida, sem dizer o que fazer, mas sugerindo possibilidades, incutindo a fé em si mesmo e a força e a coragem de arrostar as dificuldades, a transcender a condição atual de dependência e limitação de horizontes, para a expansão da expressão do eu como alguém potente e inovador no próprio caminho.
A segunda coisa que me vem à mente, é o novo Papa, Francesco. Não sendo católica, a influência do Papa Bergoglio sobre mim não é fundamental, mas, tendo em consideração a quantidade de fiéis da Igreja Católica no planeta, vejo como importante a figura de um líder religioso que ofereça um novo paradigma de atuação e prática cristã para o homem contemporâneo. O gesto, a demonstração dos ideais dos quais é imbuído, valem mais do que discursos, ainda que sejam considerados importantes manifestos públicos de intenções e políticas. Apresentar uma conduta cristã que reforce a mensagem do Cristo: simplicidade, alegria, confiança, esperança e solidariedade.
Gurus, guias, mentores, são assim, pessoas que na sua forma de viver nos oferecem alternativas para repensarmos a condução de nossas vidas, sem que devamos segui-los cegamente ou reproduzirmos suas formas e maneiras de se posicionarem frente a vida. Essas figuras espiritualizadas que nos inspiram, deixam à todos estupefatos, justamente porque agem de maneira mais adequada às leis universais de solidariedade, de auxílio discreto, de felicidade interior. Fazem o que deveria ser normal, e, num mundo de desequilíbrios e desvios práticos dos ideais de Bem, Verdade, Justiça e Virtudes, são interpretados como excepcionais quando deveriam ser a regra.
Gurus, sao dissipadores de trevas? Sim e não. Sim porque iluminam veredas e nos fazem perceber que há algo de muito simples a ser feito e que nos parecia inexequível a um primeiro olhar. Mas não serão dissipadores de trevas se não estabelecermos uma mínima condição de intersubjetividade, ou seja, de comunicação em que algo que eles manifestem cale dentro de nós.
Sem gurus, muitos de nós não teríamos sequer vislumbrado uma nova forma de interpretar, de conceber a vida humana, e, com certeza, não devem ser endeusados nem cegamente seguidos, mas considerados na sua divina tarefa de nos reconectar conosco mesmos para a nossa própria autoiluminação.
giovedì 21 marzo 2013
Maranatha
Nunca li a Bíblia por inteiro. Quando adolescente iniciei em Gênesis e parei em Jó. Ainda no Antigo Testamento me encantei com os Salmos. Do Novo Testamento li Matheus por várias vezes ao longo da vida.
Mas agora, que não trabalho mais fora de casa e tenho mais tempo livre, reiniciei o Novo Testamento, lendo todos os evangelistas, Matheus, Marcos, Lucas e João, bem como os Atos dos Apóstolos e agora, finalizei as epístolas dos Atos dos Apóstolos.
Não leio como livro de revelações ou como palavra absoluta de Deus. Leio com o senso crítico histórico, considerando os autores em sua humanidade e em sua interexistencialidade com as várias dimensões e suas experiências com a espiritualidade. Creio que as interpretações dos autores são limitadas pela condição humana e pelas monoideias dos habitantes astrais com os quais tinham contato. Creio também que eu, como leitora, também interpreto o que tenho em mãos segundo as ideias que considero verdadeiras até o momento, tendo também minha leitura se modificado ao longo da vida.
Fui católica até os dezoito anos, batizada, crismada e tive até intenções de entrar para a Ordem Canossiana, mas por um apelo à vida material, por razões de discordância com os dogmas religiosos e, por iniciar leituras espiritualistas que respondiam melhor às minhas dúvidas e explicavam melhor fenômenos comuns na espiritualidade familiar, abandonei a Igreja Católica, mesmo a respeitando e trabalhando para instituições católicas por toda a vida, onde ainda mantenho muitos amigos fiéis.
Sempre tive uma grande admiração pela figura de Saulo de Tarso, abordado por Jesus, segundo ele, na estrada para Damasco. O encontro dele com o Mestre é de uma beleza indescritível, só quem já teve a sensação da presença escandalosa de Deus em sua vida (expressão de meu amigo João Vieira), pode dimensionar o impacto de tal encontro. O agora apóstolo Paulo de Tarso é a demonstração viva da transformação que uma experiência interexistencial promove no projeto de vida pessoal. Assim ninguém é mais o mesmo depois de uma viagem astral consciente (fala de Saulo Calderon), de visualizar uma materialização espiritual, de um contato com um extra-terrestre, e por aí vai. Assim ocorreu comigo quando mudei minha concepção de religiosidade, evidentemente que sem a radicalidade paulina. Muitas experiências espirituais e interexistenciais em minha vida também marcaram profundamente minha forma de ver, de sentir e de interpretar o mundo, sabendo eu que não tenho grandes e absolutas verdades mas apenas aquelas adstritas ao horizonte do meu conhecimento proveniente do reconhecimento dos meus erros e acertos, bem como de informações que logicamente vou concatenando e comparando com a experiência empírica racionalizada.
O problema que existia quando era católica e permanece agora, trinta anos depois, ainda é a distância entre minha compreensão e minha prática diária de vida, meu comportamento para comigo e para com os outros. Há um abismo que separa as minhas concepções sempre renovadas e a minha conduta em muito repetitiva.
Encontro auxílio em práticas diversas encontradas aqui e ali, o Evangelho no Lar aprendido no Espiritismo, a leitura da Bíblia do Catolicismo, a prática da meditação no Cristianismo Primitivo, a consciência das energias com a Projeciologia, a leitura constante de tudo que me instrumentalize para o autoconhecimento e a exploração da minha realidade interexistencial. Vale tudo para a gente se conectar com o universo, para estar mais perto da realidade multidimensional. Mal conhecemos o corpo físico e seu funcionamento, mal nos relacionamos em paz com nossos parceiros de vida, que dirá reconhecer os vários corpos e a penetração da mente em várias dimensões diversas e simultaneamente. Nosso cérebro não comporta tanto conhecimento, não registra as experiências fora do corpo físico de maneira clara e nossa capacidade de consciência geral é muito limitada.
O que se pode fazer é realizar práticas que nos habilitem pouco a pouco ao crescimento espiritual.
Lendo os Atos dos Apóstolos, encontrei uma citação de Paulo que se refere ao maranatha, o "vinde a mim Senhor", o mesmo mantra que aprendi com Laurence Freeman em um retiro espiritual na cidade de Vinhedo, em São Paulo.
O ma-ra-na-tha, praticado no silêncio interior do coração, me dá alguma paz e me faz conciliar a ideia de universalidade com a minha perspectiva particular de espiritualidade.
Quando pronuncio o mantra ma-ra-na-tha, penso na multiplicidade dos Senhores, quer seja Jesus, Krishna, Buda, Alá, Jeová, Deus... que para mim são representações do Bem, da Verdade, da Paz, do equilíbrio das energias em comunhão para o desenvolvimento de todos os seres dos universos, é a minha busca em participar da construção de uma inimaginável egrégora do Bem.
Naquele momento da meditação, é como se a frase que Paulo expressa em alguma das Epístolas, "não sou mais eu que vivo, mas é o Cristo que vive em mim", se realizasse por algum átimo no meu imo; quando a união em divindade é tal que se é numa situação atemporal e alocal.
Maranatha, vinde a mim Senhor, é buscar realizar a centelha divina dentro da vida de um eu inferior que deseja se realizar num Eu superior; é o fortalecer da tentativa de aproximar meu pensar do meu existir.
Mas agora, que não trabalho mais fora de casa e tenho mais tempo livre, reiniciei o Novo Testamento, lendo todos os evangelistas, Matheus, Marcos, Lucas e João, bem como os Atos dos Apóstolos e agora, finalizei as epístolas dos Atos dos Apóstolos.
Não leio como livro de revelações ou como palavra absoluta de Deus. Leio com o senso crítico histórico, considerando os autores em sua humanidade e em sua interexistencialidade com as várias dimensões e suas experiências com a espiritualidade. Creio que as interpretações dos autores são limitadas pela condição humana e pelas monoideias dos habitantes astrais com os quais tinham contato. Creio também que eu, como leitora, também interpreto o que tenho em mãos segundo as ideias que considero verdadeiras até o momento, tendo também minha leitura se modificado ao longo da vida.
Fui católica até os dezoito anos, batizada, crismada e tive até intenções de entrar para a Ordem Canossiana, mas por um apelo à vida material, por razões de discordância com os dogmas religiosos e, por iniciar leituras espiritualistas que respondiam melhor às minhas dúvidas e explicavam melhor fenômenos comuns na espiritualidade familiar, abandonei a Igreja Católica, mesmo a respeitando e trabalhando para instituições católicas por toda a vida, onde ainda mantenho muitos amigos fiéis.
Sempre tive uma grande admiração pela figura de Saulo de Tarso, abordado por Jesus, segundo ele, na estrada para Damasco. O encontro dele com o Mestre é de uma beleza indescritível, só quem já teve a sensação da presença escandalosa de Deus em sua vida (expressão de meu amigo João Vieira), pode dimensionar o impacto de tal encontro. O agora apóstolo Paulo de Tarso é a demonstração viva da transformação que uma experiência interexistencial promove no projeto de vida pessoal. Assim ninguém é mais o mesmo depois de uma viagem astral consciente (fala de Saulo Calderon), de visualizar uma materialização espiritual, de um contato com um extra-terrestre, e por aí vai. Assim ocorreu comigo quando mudei minha concepção de religiosidade, evidentemente que sem a radicalidade paulina. Muitas experiências espirituais e interexistenciais em minha vida também marcaram profundamente minha forma de ver, de sentir e de interpretar o mundo, sabendo eu que não tenho grandes e absolutas verdades mas apenas aquelas adstritas ao horizonte do meu conhecimento proveniente do reconhecimento dos meus erros e acertos, bem como de informações que logicamente vou concatenando e comparando com a experiência empírica racionalizada.
O problema que existia quando era católica e permanece agora, trinta anos depois, ainda é a distância entre minha compreensão e minha prática diária de vida, meu comportamento para comigo e para com os outros. Há um abismo que separa as minhas concepções sempre renovadas e a minha conduta em muito repetitiva.
Encontro auxílio em práticas diversas encontradas aqui e ali, o Evangelho no Lar aprendido no Espiritismo, a leitura da Bíblia do Catolicismo, a prática da meditação no Cristianismo Primitivo, a consciência das energias com a Projeciologia, a leitura constante de tudo que me instrumentalize para o autoconhecimento e a exploração da minha realidade interexistencial. Vale tudo para a gente se conectar com o universo, para estar mais perto da realidade multidimensional. Mal conhecemos o corpo físico e seu funcionamento, mal nos relacionamos em paz com nossos parceiros de vida, que dirá reconhecer os vários corpos e a penetração da mente em várias dimensões diversas e simultaneamente. Nosso cérebro não comporta tanto conhecimento, não registra as experiências fora do corpo físico de maneira clara e nossa capacidade de consciência geral é muito limitada.
O que se pode fazer é realizar práticas que nos habilitem pouco a pouco ao crescimento espiritual.
Lendo os Atos dos Apóstolos, encontrei uma citação de Paulo que se refere ao maranatha, o "vinde a mim Senhor", o mesmo mantra que aprendi com Laurence Freeman em um retiro espiritual na cidade de Vinhedo, em São Paulo.
O ma-ra-na-tha, praticado no silêncio interior do coração, me dá alguma paz e me faz conciliar a ideia de universalidade com a minha perspectiva particular de espiritualidade.
Quando pronuncio o mantra ma-ra-na-tha, penso na multiplicidade dos Senhores, quer seja Jesus, Krishna, Buda, Alá, Jeová, Deus... que para mim são representações do Bem, da Verdade, da Paz, do equilíbrio das energias em comunhão para o desenvolvimento de todos os seres dos universos, é a minha busca em participar da construção de uma inimaginável egrégora do Bem.
Naquele momento da meditação, é como se a frase que Paulo expressa em alguma das Epístolas, "não sou mais eu que vivo, mas é o Cristo que vive em mim", se realizasse por algum átimo no meu imo; quando a união em divindade é tal que se é numa situação atemporal e alocal.
Maranatha, vinde a mim Senhor, é buscar realizar a centelha divina dentro da vida de um eu inferior que deseja se realizar num Eu superior; é o fortalecer da tentativa de aproximar meu pensar do meu existir.
domenica 3 marzo 2013
Inefável é a Verdade
A verdade das coisas é incomunicável, é inefável, uma ideia proferida por Carlo Dorofatti, não me lembro se exatamente assim, mas com esse sentido.
A gente pode se esforçar imensamente e, como num processo de alethea, ir des-velando a Verdade. De um ponto de vista metafísico existe uma Verdade única, universal e pré-existente à nossa experiência pessoal. De um ponto de vista relativista existem inúmeras verdades constituídas pelos sujeitos que as elaboram, as experienciam. Mas ambas possuem a barreira intransponível da comunicação. Claramente impossível dizer exatamente aquilo que se considera a Verdade ou cada uma das verdades.
Muito difícil saber qual o significado que um indivíduo atribui a um conceito, tanto daquele que o constrói com consciência como daquele que o faz por impulso da forma de conhecer própria da espécie humana.
Um dos grandes problemas humanos é exatamente a linguagem, as dificuldades que temos cotidianamente de expressarmos a outrem o que sentimos e o que pensamos. Sempre o empecilho de que aquilo que proferimos com o sentido que empregamos dificilmente é entendido tal e qual pensamos. Em geral a outra pessoa entende o que dizemos mediante os conceitos construídos e albergados por ela e que muitas vezes não coincidem com os nossos.
É um tema complicado pra gente pensar e partilhar é o da morte. As crenças pessoais e grupais constituídas como verdades não nos permitem acessar o fenômeno da morte de maneira isenta. Toda visão, toda concepção é o meio de interpretação do fenômeno.
Minha avó materna, Cici, despediu-se dos corpos físicos, densos, e agora habita uma região diferente da nossa, em uma dimensão inacessível ainda para a tecnologia de nossos corpos. E mesmo que alguém a acesse e permita a comunicação, seja por meio da mediunidade psicofônica, da psicografia, da clarividência, da projeção astral ou da TCI (transcomunicação instrumental por meio de áudios, fotografias e imagens em movimento, via computador, rádio, tv, telefone), ainda assim a interpretação que faremos das informações será passada pelo filtro, pelos óculos da nossa cosmovisão, particular e ao mesmo tempo partilhada num grupo, seja de cunho religioso, exotérico ou científico.
Tenho observado o fenômeno da morte e suas consequências nos comportamentos dos familiares e amigos. As famílias expressam os paradigmas pelos quais conduzem suas vidas de maneira veemente quando um parente ou alguém próximo morre, dessoma, desencarna.
Há os desesperados em sua tristeza que se sentem revoltados, abandonados, desrespeitados e injustiçados; há os de uma discreta tristeza que se portam tranquilos, solidários, esperançosos e compreensivos. De um grupo ao outro há uma infinita gama de variações, mas em geral, é essa a classificação que faço por observação.
Tanto num grupo como no outro há de fundo uma concepção de sentido da vida humana nesse mundo, há uma maneira de vivenciar as emoções e os vínculos afetivos. De qualquer maneira, ao conversar individualmente com os participantes de ambos os grupos, cada um tem, dentro de um paradigma geral, sua visão particular, sua compreensão do fenômeno, sua explicação para o que sucedeu e sucederá ao "morto".
Não creio que alguém possua a resposta melhor, mais adequada porque cada um constrói e acessa um nível de informações, por meios muito diferentes e com orientações muito divergentes. No final, parece que mesmo com algum acompanhamento, o caminho é solitário, a busca é pessoal e a verdade que vamos constituindo é algo que vige entre o interior e o exterior. Nossa tentativa é de organizar tudo dentro de nós para atribuirmos senso à vida e ao mundo, às nossas relações ditosas ou amargas com as pessoas, mas é sempre um exercício muito particular.
O que me parece é que na busca incessante, mais panoramas vão sendo descortinados e apresentados horizontes mais amplos; enquanto aquele indivíduo que não questiona, não se empenha numa reflexão séria e continuada, fica atado a uma concepção que não o liberta, não o acalenta, não o impulsiona para novas qualidades em suas relações e ideias.
Pessoa alguma, ao meu ver, dentro do meu espectro de conhecimento, tem uma verdade acabada que me sirva, mas ao longo da vida, no evolver das concepções que albergo, vejo mais sentido em coisas nas quais creio hoje e que ontem ignorava.
Penso que se existe a Verdade, ela não será dita mas vivida, será um estado e não um discurso. Para mim as verdades são os discursos explicadores e divulgadores das nossas concepções e de nossos grupos, são proferidos e nós tentamos aplicá-los como guias de nossas ações e das ações alheias.
Talvez a observação faça mais pelo vislumbre da Verdade do que inúmeros discursos de verdades.
Enfim, falamos demais e vivemos de menos. Nossas vidas se restringem aos nossos discursos incompreensíveis e incompreendidos, e assim impedimos que a Verdade inefável se manifeste enquanto essência da Vida.
A morte é um tema especial para pensar a inefabilidade da Verdade, já que cada um se aproxima dela segundo as concepções de suas vivências e ninguém pode ser assertivo quanto à uma explicação cabal. Mas é inegável também que é um tema importante para abrir espaço para rever velhas crenças e forjar novas concepções que nos façam sentir mais próximos de um sentido universal.
A morte da Cici foi uma grande oportunidade para todos exercitarmos comportamentos segundo nossas crenças e observarmos os comportamentos alheios. Com certeza, a morte da Cici fez todos se perguntarem sobre a Verdade do sentido da vida.
A gente pode se esforçar imensamente e, como num processo de alethea, ir des-velando a Verdade. De um ponto de vista metafísico existe uma Verdade única, universal e pré-existente à nossa experiência pessoal. De um ponto de vista relativista existem inúmeras verdades constituídas pelos sujeitos que as elaboram, as experienciam. Mas ambas possuem a barreira intransponível da comunicação. Claramente impossível dizer exatamente aquilo que se considera a Verdade ou cada uma das verdades.
Muito difícil saber qual o significado que um indivíduo atribui a um conceito, tanto daquele que o constrói com consciência como daquele que o faz por impulso da forma de conhecer própria da espécie humana.
Um dos grandes problemas humanos é exatamente a linguagem, as dificuldades que temos cotidianamente de expressarmos a outrem o que sentimos e o que pensamos. Sempre o empecilho de que aquilo que proferimos com o sentido que empregamos dificilmente é entendido tal e qual pensamos. Em geral a outra pessoa entende o que dizemos mediante os conceitos construídos e albergados por ela e que muitas vezes não coincidem com os nossos.
É um tema complicado pra gente pensar e partilhar é o da morte. As crenças pessoais e grupais constituídas como verdades não nos permitem acessar o fenômeno da morte de maneira isenta. Toda visão, toda concepção é o meio de interpretação do fenômeno.
Minha avó materna, Cici, despediu-se dos corpos físicos, densos, e agora habita uma região diferente da nossa, em uma dimensão inacessível ainda para a tecnologia de nossos corpos. E mesmo que alguém a acesse e permita a comunicação, seja por meio da mediunidade psicofônica, da psicografia, da clarividência, da projeção astral ou da TCI (transcomunicação instrumental por meio de áudios, fotografias e imagens em movimento, via computador, rádio, tv, telefone), ainda assim a interpretação que faremos das informações será passada pelo filtro, pelos óculos da nossa cosmovisão, particular e ao mesmo tempo partilhada num grupo, seja de cunho religioso, exotérico ou científico.
Tenho observado o fenômeno da morte e suas consequências nos comportamentos dos familiares e amigos. As famílias expressam os paradigmas pelos quais conduzem suas vidas de maneira veemente quando um parente ou alguém próximo morre, dessoma, desencarna.
Há os desesperados em sua tristeza que se sentem revoltados, abandonados, desrespeitados e injustiçados; há os de uma discreta tristeza que se portam tranquilos, solidários, esperançosos e compreensivos. De um grupo ao outro há uma infinita gama de variações, mas em geral, é essa a classificação que faço por observação.
Tanto num grupo como no outro há de fundo uma concepção de sentido da vida humana nesse mundo, há uma maneira de vivenciar as emoções e os vínculos afetivos. De qualquer maneira, ao conversar individualmente com os participantes de ambos os grupos, cada um tem, dentro de um paradigma geral, sua visão particular, sua compreensão do fenômeno, sua explicação para o que sucedeu e sucederá ao "morto".
Não creio que alguém possua a resposta melhor, mais adequada porque cada um constrói e acessa um nível de informações, por meios muito diferentes e com orientações muito divergentes. No final, parece que mesmo com algum acompanhamento, o caminho é solitário, a busca é pessoal e a verdade que vamos constituindo é algo que vige entre o interior e o exterior. Nossa tentativa é de organizar tudo dentro de nós para atribuirmos senso à vida e ao mundo, às nossas relações ditosas ou amargas com as pessoas, mas é sempre um exercício muito particular.
O que me parece é que na busca incessante, mais panoramas vão sendo descortinados e apresentados horizontes mais amplos; enquanto aquele indivíduo que não questiona, não se empenha numa reflexão séria e continuada, fica atado a uma concepção que não o liberta, não o acalenta, não o impulsiona para novas qualidades em suas relações e ideias.
Pessoa alguma, ao meu ver, dentro do meu espectro de conhecimento, tem uma verdade acabada que me sirva, mas ao longo da vida, no evolver das concepções que albergo, vejo mais sentido em coisas nas quais creio hoje e que ontem ignorava.
Penso que se existe a Verdade, ela não será dita mas vivida, será um estado e não um discurso. Para mim as verdades são os discursos explicadores e divulgadores das nossas concepções e de nossos grupos, são proferidos e nós tentamos aplicá-los como guias de nossas ações e das ações alheias.
Talvez a observação faça mais pelo vislumbre da Verdade do que inúmeros discursos de verdades.
Enfim, falamos demais e vivemos de menos. Nossas vidas se restringem aos nossos discursos incompreensíveis e incompreendidos, e assim impedimos que a Verdade inefável se manifeste enquanto essência da Vida.
A morte é um tema especial para pensar a inefabilidade da Verdade, já que cada um se aproxima dela segundo as concepções de suas vivências e ninguém pode ser assertivo quanto à uma explicação cabal. Mas é inegável também que é um tema importante para abrir espaço para rever velhas crenças e forjar novas concepções que nos façam sentir mais próximos de um sentido universal.
A morte da Cici foi uma grande oportunidade para todos exercitarmos comportamentos segundo nossas crenças e observarmos os comportamentos alheios. Com certeza, a morte da Cici fez todos se perguntarem sobre a Verdade do sentido da vida.
venerdì 1 marzo 2013
Eleições e democracia
A Itália acabou de passar pelo processo de eleições gerais em exercício de democracia.
Uma confusão danada se estabeleceu após os resultados, o que também já ocorreu várias vezes no Brasil, em virtude de não haver maioria do legislativo da mesma linha política do executivo. Uma aparente ingovernabilidade.
Pra mim a democracia é justamente isso, todos diferentes e juntos para pensarem, planejarem e agirem sobre qualquer situação, seja religiosa, política, educacional, social, cultural, sei lá, qualquer coisa que importe para cada um dos cidadãos.
Eu tenho muito claro pra mim que democracia tem que ser vista segundo a concepção de John Dewey, de que democracia é questão de vivência diária com base biológica e inteligente, é alguma coisa que não se restringe ao exercício profissional da política.
Estou pensando no que acontece ali no horto do meu companheiro, ou no seu jardim. Cada forma de vida, seja animal, mineral ou vegetal, em confronto entre elas e com a ação humana. Há um equilíbrio de sobrevivência entre espécies diferentes que se atritam e daí criam um ecossistema funcional. Há uma inteligência instintiva que direciona o comportamento adaptativo de cada espécie ao contato com as demais e a inteligência consciente do horticultor que interfere diretamente nesse processo.
No geral se vê que é um embate de seres diferentes que devem viver em intenso contato e luta pela sobrevivência, alguns perdem mais e outros ganham mais, mas no geral todos vão em frente.
E eu vejo que é algo muito parecido nas sociedades humanas. Democracia é todos juntos focalizando um determinando problema e procurando uma solução comum que favoreça à todos com mínimos danos. Muitos grupos de visões diferentes se empenham na busca do poder para organizar as instituições econômicas, políticas, culturais, educacionais e sociais em geral, segundo seus propósitos e cosmovisões. Só que na democracia o grupo que alcança o poder não o fará de forma ditatorial e impositiva, mas terá que estabelecer alianças, acordos e fazer concessões, para articular com os interesses dos outros grupos também partilhantes do governo. O que é visto como perigo de ingovernabilidade eu vejo como oportunidade de se escutar vozes discordantes que forçarão a mudança de comportamentos usuais, desde que as novas caras do legislativo não se corrompam.
No caso específico que citei no início do texto, a eleição italiana de fevereiro de 2013, há quase um empate entre a esquerda e da direita e a emergência importante de um movimento, o Cinco Stelle, liderado por um cômico que foi, em dois anos, ocupando o espaço de praças públicas e via internet, agregando um número impressionante de cidadãos inconformados com a maneira tradicional de fazer política.
A primeira crítica é do movimento ser liderado por um cômico que não é político. Quer dizer, não é político do ponto de vista profissional, mas, como todo cidadão, ele é politico no sentido de que é alguém participante da sociedade e que tem todo o direito de se manifestar e exigir que os ditos políticos profissionais se comportem em prol do bem geral da sociedade, e não apenas segundo os interesses particulares de grupos econômicos e políticos.
Jean Jacques Rousseau ja discutia isso no Contrato Social e no Discurso sobre a Origem e o Fundamento da Desigualdade entre os Homens. O importante é buscar o bem de todos e não o bem particular. O bem geral está ligado às coisas fundamentais para as vidas humanas e o bem particular relacionado aos interesses supérfluos de determinados grupos. Então, as pessoas em geral precisam se alimentar, se abrigar, criar produtiva e culturalmente, procriar, cuidar da saúde, conviver solidariamente etc. Para isso é necessário um exercício político que ouça todos e direcione as arrecadações fiscais para prioritariamente garantir os direitos naturais e sociais de todos e de cada um. Mas ter muitos imóveis, se alimentar desmesuradamente, usufruir da cultura enquanto privilégio, educar seus filhos de maneira especial e segregacionista, só pode ser conquistado negando direitos, explorando o trabalho formal e o informal e direcionando verbas públicas para desejos particulares.
Então, modificar comportamentos pessoais no exercício profissional da política será fundamental para criar uma nova sociedade construída em bases democráticas. e isso dependerá de se rever as bases de nossos pensamentos e ações, em que medida pensamos primeiro em nós e no nosso grupo e em que medida nossas escolhas atingem o geral da sociedade. Para isso todos têm que se manifestar, seja nas praças e nas infovias ou nas comunicações com o poder público, mas principalmente nas eleições, de maneira consciente e exigente.
Uma confusão danada se estabeleceu após os resultados, o que também já ocorreu várias vezes no Brasil, em virtude de não haver maioria do legislativo da mesma linha política do executivo. Uma aparente ingovernabilidade.
Pra mim a democracia é justamente isso, todos diferentes e juntos para pensarem, planejarem e agirem sobre qualquer situação, seja religiosa, política, educacional, social, cultural, sei lá, qualquer coisa que importe para cada um dos cidadãos.
Eu tenho muito claro pra mim que democracia tem que ser vista segundo a concepção de John Dewey, de que democracia é questão de vivência diária com base biológica e inteligente, é alguma coisa que não se restringe ao exercício profissional da política.
Estou pensando no que acontece ali no horto do meu companheiro, ou no seu jardim. Cada forma de vida, seja animal, mineral ou vegetal, em confronto entre elas e com a ação humana. Há um equilíbrio de sobrevivência entre espécies diferentes que se atritam e daí criam um ecossistema funcional. Há uma inteligência instintiva que direciona o comportamento adaptativo de cada espécie ao contato com as demais e a inteligência consciente do horticultor que interfere diretamente nesse processo.
No geral se vê que é um embate de seres diferentes que devem viver em intenso contato e luta pela sobrevivência, alguns perdem mais e outros ganham mais, mas no geral todos vão em frente.
E eu vejo que é algo muito parecido nas sociedades humanas. Democracia é todos juntos focalizando um determinando problema e procurando uma solução comum que favoreça à todos com mínimos danos. Muitos grupos de visões diferentes se empenham na busca do poder para organizar as instituições econômicas, políticas, culturais, educacionais e sociais em geral, segundo seus propósitos e cosmovisões. Só que na democracia o grupo que alcança o poder não o fará de forma ditatorial e impositiva, mas terá que estabelecer alianças, acordos e fazer concessões, para articular com os interesses dos outros grupos também partilhantes do governo. O que é visto como perigo de ingovernabilidade eu vejo como oportunidade de se escutar vozes discordantes que forçarão a mudança de comportamentos usuais, desde que as novas caras do legislativo não se corrompam.
No caso específico que citei no início do texto, a eleição italiana de fevereiro de 2013, há quase um empate entre a esquerda e da direita e a emergência importante de um movimento, o Cinco Stelle, liderado por um cômico que foi, em dois anos, ocupando o espaço de praças públicas e via internet, agregando um número impressionante de cidadãos inconformados com a maneira tradicional de fazer política.
A primeira crítica é do movimento ser liderado por um cômico que não é político. Quer dizer, não é político do ponto de vista profissional, mas, como todo cidadão, ele é politico no sentido de que é alguém participante da sociedade e que tem todo o direito de se manifestar e exigir que os ditos políticos profissionais se comportem em prol do bem geral da sociedade, e não apenas segundo os interesses particulares de grupos econômicos e políticos.
Jean Jacques Rousseau ja discutia isso no Contrato Social e no Discurso sobre a Origem e o Fundamento da Desigualdade entre os Homens. O importante é buscar o bem de todos e não o bem particular. O bem geral está ligado às coisas fundamentais para as vidas humanas e o bem particular relacionado aos interesses supérfluos de determinados grupos. Então, as pessoas em geral precisam se alimentar, se abrigar, criar produtiva e culturalmente, procriar, cuidar da saúde, conviver solidariamente etc. Para isso é necessário um exercício político que ouça todos e direcione as arrecadações fiscais para prioritariamente garantir os direitos naturais e sociais de todos e de cada um. Mas ter muitos imóveis, se alimentar desmesuradamente, usufruir da cultura enquanto privilégio, educar seus filhos de maneira especial e segregacionista, só pode ser conquistado negando direitos, explorando o trabalho formal e o informal e direcionando verbas públicas para desejos particulares.
Então, modificar comportamentos pessoais no exercício profissional da política será fundamental para criar uma nova sociedade construída em bases democráticas. e isso dependerá de se rever as bases de nossos pensamentos e ações, em que medida pensamos primeiro em nós e no nosso grupo e em que medida nossas escolhas atingem o geral da sociedade. Para isso todos têm que se manifestar, seja nas praças e nas infovias ou nas comunicações com o poder público, mas principalmente nas eleições, de maneira consciente e exigente.
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