Eu penso que toda grande corrupção inicia na pequena corrupção.
Os jornais televisivos, bem como os programas de entrevistas de caráter político, incidem majoritariamente sobre imbrogli, as façanhas, o mau caratismo dos políticos. E a corrupção tem sido um mote muito frequente, seja no que se refere às ações, às práticas entre o setor econômico e a política, bem como à indivíduos isolados que se locupletam do erário público.
Eu acabei de reassistir no youtube a novela Vale Tudo, exibida originalmente pela Globo entre 1988 e 1989. Estávamos entre o final do primeiro governo civil de eleição indireta e o início da primeira eleição direta para presidente da república do Brasil. A novela escrita por Gilberto Braga entre outros, incidia fundamentalmente sobre o tema das corrupções em geral, da dona de casa que trocava a etiqueta do preço no supermercado, até o político em conchavo com empresas de grande porte em época de eleições. Um elemento interessante é que todos os eventos corruptos se davam em torno do desejo de amealhar grana ou diminuir os gastos. O gostinho de ser mais esperto, de levar vantagem em tudo, de deter um poder exercido na surdina, de estar por cima, ficou bem expresso na cena final, na qual o personagem Marco Aurélio "dá uma banana" para o Brasil fugindo num jatinho, impune ele de suas falcatruas públicas e privadas e sua esposa de um assassinato. Em contraponto, o personagem Ivan, envolvido na corrupção de um funcionário público, se entrega para a justiça e vai ao cárcere, dando uma mensagem de que não importa quem faça a corrupção a punição deve ser aplicada, o que é eloquente, afinal ele era o bom moço da história.
Reassistindo a novela é que eu pensei na frase inicial do texto. Na época original da apresentação da novela eu habitava com o pai dos meus filhos, um ativo militante de partido político, e as conversas em casa eram candentes acerca das corrupções engendradas pela classe política na sua função de manutenção da superestrutura justificadora da infraestrutura econômica desigual e exploradora. Os poderes judiciário, legislativo e executivo, todos mancomunados com a burguesia econômica. Nesse caldo de emoções fortes, as discussões se davam em todas as oportunidades, e, assim como hoje na Itália, em época de eleições, as pessoas dirigiam suas revoltas particulares e públicas para a classe política. E recordo que estando na feira do José Menino, bairro da orla de Santos na divisa com São Vicente, eu conversava com uma feirante de frutas que "descascava o pepino" da politicagem. E aí eu perguntei a ela o que faria se fosse eleita para um cargo político, e ela sem titubear me respondeu que arrumaria primeiro sua família com empregos e vantagens e, depois, agiria em prol do povo. Ela não titubeou porque não percebia que seu ato seria tão corrupto quanto o dos políticos por ela agredidos verbalmente. Para ela nepotismo não era corrupção, era cuidar dos seus. Há um esquecimento ou uma inconsciência de que todo ato é político, independente do exercício do poder efetivo na política oficial.
Meu ex-companheiro foi empossado num cargo público acessado por concurso, e daí em diante muitos amigos e parentes o procuravam pedindo empregos, ao que ele sempre negou. Essas pessoas eram boas, aparentemente honestas, e não se observavam na condição de corruptas, ao mesmo tempo diziam que meu ex-companheiro era alguém que havia "subido na vida" e não oportunizara benefícios para a família. Como se fosse um caso de ingratidão e não de correção de caráter.
Há uma miopia social acerca das questões morais nos entremeios dos âmbitos particulares e públicos. Penso que é muito próprio das culturas latinas, onde não há vergonha nenhuma em se praticar pequenos atos que aparentemente não atingem os patamares da grande corrupção. Então, a Mafia, a 'Ndrangheta, a Cosa Nostra e suas relações com os poderes políticos, são corruptas, mas o indivíduo que não exige e não dá nota fiscal, é correto. Não vejo diferença do comportamento do cidadão brasileiro em relação ao cidadão italiano.
Poderia se pensar numa questão cultural de fixação e perpetuação das práticas corruptas nas relações entre os sistemas político, econômico e social do Império Romano, até os vínculos atuais do capital internacional com os países e suas políticas públicas. Raimundo Faoro descreve bem suas raízes brasileiras no livro Os Donos do Poder.
Também é possível incursionar por uma reflexão de caráter moral onde práticas milenares estão atavicamente entranhadas nos sistemas de relações públicas e privadas, principalmente porque não há relevante trabalho filosófico acerca de tais questões no âmbito da educação na Itália. Aliás, nesse quesito o Brasil está muito adiante com a Filosofia como disciplina oficial no Ensino Médio e já um avançado trabalho de relevância de Filosofia para Crianças no Ensino Fundamental. Já há algumas décadas que a crise ética é tema de livros, debates, em escala mundial, mas nos casos específicos que cito, as mudanças mais relevantes são a da exposição midiática dos fatos, mas ainda com pouca repercussão na mudança das atitudes e punições, como é o caso dos políticos notórios no Brasil e na Itália. Tal como na novela do Gilberto Braga, pequenas corrupções dão cadeia, as grandes ficam nas mãos dos famigerados escritórios de advocacia e os recursos infindáveis, além de CPIs que acabam em pizza. Aqui loas ao Ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa que faz um trabalho de fôlego no Brasil contra as impunidades no âmbito da política.
A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva indica entre os vários níveis de aprofundamento das características de comportamento sociopata, aquele das pessoas que praticam pequenos golpes e corrupções afetando vítimas individuais e instituições públicas, de velhinhos nas filas de bancos até desvio de verbas públicas de hospitais. Todo aquele que se locupleta do outro sem remorso, sabendo que faz algo errado, sobrevalendo seus interesses pessoais aos interesses do coletivo, seria um portador de comportamento sociopata, ainda que leve. Há uma possibilidade de orientar esses indivíduos para evitar o exercício do comportamento sociopata leve com uma educação firme na família e na escola, bem como um constante trabalho de reflexão e conscientização, além, é claro, da punição efetiva, especialmente no que se refere ao exercício judiciário. Uma sociedade forte em valores e práticas ético-morais de respeito ao indivíduo e às instituições públicas, inibe a ação sociopata.
Assim, se pensar como a Dra. Ana Beatriz Barbosa, há uma característica própria do indivíduo que pratica a corrupção, seja a grande, seja a pequena.
Eu como espiritualista, penso que, além das questões antropológicas, culturais e políticas que dirigem nossas ações interpessoais e com as instituições, há também nossos vícios particulares praticados em vidas infindáveis. Em muitas romagens terrenas e extraterrenas, pautamos nossas relações com os outros indivíduos em ideários individualistas, egoístas e de exercício de poder. Algo que em cada um de nós se manifesta.
Aquilo que está radicado na alma só pode ser transcendido quando novas experiências humanas e novas reflexões se apresentarem.
Daí que a corrupção não é questão da política de carreira, mas da política cotidiana das nossas relações conosco mesmos e com as pessoas com as quais nos vinculamos em situações particulares e públicas. Muitos debates televisivos, muita ação reflexiva nas escolas, muito cuidado familiar, muitos movimentos sociais civis; ou seja, uma ação pública constante. Mas, especialmente, uma ação pessoal de caráter íntimo e incomunicável, que se dê na autoobservação das origens e fundamentações de nossos próprios atos particulares e cotidianos, para que possamos erradicar de nossa alma os resquícios das práticas corruptas. Como pensava Pestalozzi, educado o homem em sua própria intimidade, transformar-se-á a sociedade.
venerdì 11 gennaio 2013
giovedì 10 gennaio 2013
Um som para a paz interior
Um som para abrir as janelas da alma para a paz... Deep Forest, Pé de Flor, de Carlos Brandao e Flavio Dell'isolla
Manoel de Barros e a simplicidade
O João de Barro é um passarinho e o Manoel de Barros é a voz divina e inefável na fala prosaica do matuto, como disse Rochele, minha ex-aluna e amiga pra sempre. A poesia de Manoel de Barros é para ser lida com o gozo infantil de mergulhar os pés num riacho, de rabiscar cores num papel qualquer, de seguir longamente os passos de uma formiga pelo tapete da sala.
Meu eterno amigo João Vieira, professor, entre outras infinitas coisas, de Lógica, sempre repetia que toda solução simples é falaciosa. E penso que as incursões pela vida acadêmica me deram muitos instrumentos de criação de uma realidade como se tudo fosse passível de ser rearranjado de maneira segura e apropriada, tudo muito regulado pela razão e a ciência. As soluções da racionalidade científica são falaciosas porque nos impõem um roteiro metódico de fácil condução mas que pouco agrega em termos de segurança para os dramas humanos e para a pacificação do coração quando a noite cai. A poesia e o cotidiano prosaico podem ser mãos a nos guiar para além das certezas racionais.
E daí que minha tentativa é de refletir sobre a escancarada simplicidade das coisas e pessoas prosaicas, sempre desprezadas na grandiosidade dos temas metafísicos e do cotidiano imponente dos grandes problemas estruturais da humanidade contemporânea, como o cu da formiga citado num poema de Barros, assim como minha vó Cici, mulher do campo e da periferia da vida. Coisas e pessoas inexistentes pela sua aparente desnecessidade no imaginário humano superior.
Eu sempre tive uma atração irresistível pelos cenários e pessoas simples porque sentia, a partir deles, um chamamento de significados que me aprumavam em prol de minhas mais profundas necessidades espirituais e materiais, tudo num desenho único.
Minha vó, já decantada num texto do ano passado, sempre foi uma referência constante em minha vida, e, aos 21 anos, fui para seu local de nascimento e vida até pouco mais de 30 anos, em Minas Gerais. Minha tentativa era de resgatar raízes que não eram apenas óbvias e determinadas mas muito mais de escolhas e autodeterminações. Ali encontrei um paradigma de vida que hoje, em revisitações, se perdeu em termos de organização prática de vida, tudo num modelão globalizado, mas que, do ponto de vista humano, se mantém, em relações mais vivazes e olho no olho.
Aquela coisa de sentar à mesa em torno de um café doce, um pão com queijo, falando de tudo e de nada, coisas da vida, do sentimento e dos sonhos perdidos e redimensionados, era um alimento que me preenchia do gozo barroco do estômago ao céu.
Participando do fã clube Minha Estrela, de puras loas ao Flávio Venturini, revivi em Minas Gerais meus tempos de enlevo emocional ao som dos clássicos do Clube da Esquina e do 14 Bis, do rock progressivo e rural de O Terço. Ali encontrei amigos baianos, cariocas, mineiros e paulistas que partilharam momentos a partir das letras simples e diretas, ou ainda cifradas e complexas,tudo numa construção de cenários de cores e sons que abriam portas de percepção, fazendo das coisas simples da vida uma coisa muito além, sem ter que submeter os atos a situações heroicas e extremas.
Hoje, aqui na Itália, nos domingos em que me embrenho com meu companheiro pelas vielas e caminhos rústicos, pelas trilhas de bosques, parando para observar rochas, plantas, pequenos e quase invisíveis animais, bebendo água fresca e gelada em grotões, no silêncio das palavras sob o som dos passos e a música das árvores, vivo simultaneamente, aqui, e nas Minas Gerais das minhas lembranças e as ruas do Morro da Nova Cintra, em Santos, onde fui criada. Longe da urbanidade modernosa e dos compromissos importantes das vidas agitadas, ouço ecos de um ser que se esforça por se manifestar como eu mesma.
Claro que não sou um vetor retilíneo na impulsão do móvel de minhas realizações, mas propriamente sigo circunvoluções que, como na estética do filme 21 Gramas, dirigido por Alejandro Gonzalez Iñarritu, vou do presente ao futuro e ao passado numa compulsão por incoerências e sobreposições de escolhas que ora são acertadas e logo em seguida são impossíveis de digerir, e na dor e na delícia de se ser o que se é.
Também tenho meus momentos de glorificação da supremacia da inteligência intelectual e da genialidade dos ícones literários, musicais e acadêmicos, mas quando o pano cai e as pessoas e situações são vistas sob uma perspectiva nua e crua, se vê que tudo é demasiado humano e simples, como uma viagem heideggeriana do discurso complexo para a simplicidade do ato que, na sua inefabilidade, revela mais do que se poderia esperar, e que diz mais da essência das pessoas e coisas do que a aparência rebuscada que se faz grandiosa na sua pequenez hedionda.
E é no pequeno, no prosaico, no simples que sinto condições de resgatar um ritmo de vida mais condizente com o significado a ser construído para uma trajetória autêntica, verdadeira, ainda que com recaídas de busca de grandes motivos e aplicação pragmática das horas.
Em verdade, agora, o nada fazer inútil cria ensejos de vôos mentais impossíveis na barafunda da vida útil e progressiva do sucesso contemporâneo.
...
Viva o cu da formiga, viva Cici, viva Manoel de Barros, viva o olhar agudo sobre as coisas e pessoas comuns na simplicidade reveladora do ritmo autêntico da vida.
Meu eterno amigo João Vieira, professor, entre outras infinitas coisas, de Lógica, sempre repetia que toda solução simples é falaciosa. E penso que as incursões pela vida acadêmica me deram muitos instrumentos de criação de uma realidade como se tudo fosse passível de ser rearranjado de maneira segura e apropriada, tudo muito regulado pela razão e a ciência. As soluções da racionalidade científica são falaciosas porque nos impõem um roteiro metódico de fácil condução mas que pouco agrega em termos de segurança para os dramas humanos e para a pacificação do coração quando a noite cai. A poesia e o cotidiano prosaico podem ser mãos a nos guiar para além das certezas racionais.
E daí que minha tentativa é de refletir sobre a escancarada simplicidade das coisas e pessoas prosaicas, sempre desprezadas na grandiosidade dos temas metafísicos e do cotidiano imponente dos grandes problemas estruturais da humanidade contemporânea, como o cu da formiga citado num poema de Barros, assim como minha vó Cici, mulher do campo e da periferia da vida. Coisas e pessoas inexistentes pela sua aparente desnecessidade no imaginário humano superior.
Eu sempre tive uma atração irresistível pelos cenários e pessoas simples porque sentia, a partir deles, um chamamento de significados que me aprumavam em prol de minhas mais profundas necessidades espirituais e materiais, tudo num desenho único.
Minha vó, já decantada num texto do ano passado, sempre foi uma referência constante em minha vida, e, aos 21 anos, fui para seu local de nascimento e vida até pouco mais de 30 anos, em Minas Gerais. Minha tentativa era de resgatar raízes que não eram apenas óbvias e determinadas mas muito mais de escolhas e autodeterminações. Ali encontrei um paradigma de vida que hoje, em revisitações, se perdeu em termos de organização prática de vida, tudo num modelão globalizado, mas que, do ponto de vista humano, se mantém, em relações mais vivazes e olho no olho.
Aquela coisa de sentar à mesa em torno de um café doce, um pão com queijo, falando de tudo e de nada, coisas da vida, do sentimento e dos sonhos perdidos e redimensionados, era um alimento que me preenchia do gozo barroco do estômago ao céu.
Participando do fã clube Minha Estrela, de puras loas ao Flávio Venturini, revivi em Minas Gerais meus tempos de enlevo emocional ao som dos clássicos do Clube da Esquina e do 14 Bis, do rock progressivo e rural de O Terço. Ali encontrei amigos baianos, cariocas, mineiros e paulistas que partilharam momentos a partir das letras simples e diretas, ou ainda cifradas e complexas,tudo numa construção de cenários de cores e sons que abriam portas de percepção, fazendo das coisas simples da vida uma coisa muito além, sem ter que submeter os atos a situações heroicas e extremas.
Hoje, aqui na Itália, nos domingos em que me embrenho com meu companheiro pelas vielas e caminhos rústicos, pelas trilhas de bosques, parando para observar rochas, plantas, pequenos e quase invisíveis animais, bebendo água fresca e gelada em grotões, no silêncio das palavras sob o som dos passos e a música das árvores, vivo simultaneamente, aqui, e nas Minas Gerais das minhas lembranças e as ruas do Morro da Nova Cintra, em Santos, onde fui criada. Longe da urbanidade modernosa e dos compromissos importantes das vidas agitadas, ouço ecos de um ser que se esforça por se manifestar como eu mesma.
Claro que não sou um vetor retilíneo na impulsão do móvel de minhas realizações, mas propriamente sigo circunvoluções que, como na estética do filme 21 Gramas, dirigido por Alejandro Gonzalez Iñarritu, vou do presente ao futuro e ao passado numa compulsão por incoerências e sobreposições de escolhas que ora são acertadas e logo em seguida são impossíveis de digerir, e na dor e na delícia de se ser o que se é.
Também tenho meus momentos de glorificação da supremacia da inteligência intelectual e da genialidade dos ícones literários, musicais e acadêmicos, mas quando o pano cai e as pessoas e situações são vistas sob uma perspectiva nua e crua, se vê que tudo é demasiado humano e simples, como uma viagem heideggeriana do discurso complexo para a simplicidade do ato que, na sua inefabilidade, revela mais do que se poderia esperar, e que diz mais da essência das pessoas e coisas do que a aparência rebuscada que se faz grandiosa na sua pequenez hedionda.
E é no pequeno, no prosaico, no simples que sinto condições de resgatar um ritmo de vida mais condizente com o significado a ser construído para uma trajetória autêntica, verdadeira, ainda que com recaídas de busca de grandes motivos e aplicação pragmática das horas.
Em verdade, agora, o nada fazer inútil cria ensejos de vôos mentais impossíveis na barafunda da vida útil e progressiva do sucesso contemporâneo.
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Viva o cu da formiga, viva Cici, viva Manoel de Barros, viva o olhar agudo sobre as coisas e pessoas comuns na simplicidade reveladora do ritmo autêntico da vida.
Mensagem aos ex-alunos
Apesar de já estar afastada da sala de aula desde junho de 2011, tive a grata surpresa de ser informada da homenagem de uma turma de Pedagogia por ocasião de sua formatura agora em 2013. Aqui publico a mensagem que enviei para as ex-alunas mas que, de maneira geral, se estende para todos aqueles alunos de Licenciaturas (Filosofia, Geografia, Letras, Psicologia, Matemática e História) e Cursos Normais/Magistério com os quais convivi de 1986 até 2011:
"Queridas ex-alunas e agora pedagogas, compartilho com vocês a paixão pela educação e o entusiasmo pela possibilidade de contribuir para a humanização de crianças, adolescentes e adultos por meio do aperfeiçoamento da inteligência e da sensibilidade, bem como da partilha dos conhecimentos construídos pela humanidade e da ampliação dos horizontes críticos, nos âmbitos da ciência, da ética e da estética.
Agradeço imensamente a oportunidade de tê-las em minha experiência docente; agradeço a generosidade, a disponibilidade e a paciência com que partilharam aulas, estudos e reflexões.
Vocês alimentam minha esperança inquebrantável no poder da educação e do amor que entrelaça as relações humanas.
Que as Forças Criadoras dos Universos as amparem e acompanhem luminosamente em todos os momentos de suas vidas pessoais e profissionais.
Um doce beijo nos seus doces corações.
marcia heloisa."
mercoledì 5 dicembre 2012
A transição planetária e a Era de Cristal
lindas, lúcidas e inspiradas palavras abaixo e que podem ser complementadas com leituras no sítio http://somostodosum.ig.com.br/p.asp?i=13462&s=1
mercoledì 14 novembre 2012
Vale quanto pesa?
Hoje quero refletir sobre meus preconceitos intelectuais e os benefícios e os malefícios que eles me trouxeram. Com padrões muito rígidos sobre o que era importante ou não, sobre o que merecia meu tempo e atenção, sobre aquilo que me ocupava espaço mental e emocional, por um longo período do final da adolescência até um pouco mais de trinta anos, eu fazia sérias distinções entre coisas que eu reputava de alto valor e outras qualificadas como medíocres.
Um benefício de tal rigor de classificação foi me permitir conhecer clássicos de literatura, recortes específicos da história sócio-cultural, política e econômica, bem como constituir panoramas conceituais sobre a filosofia e a arte. Um malefício foi me afastar de tesouros travestidos de lixo midiático.
Eu frequentei o meu primeiro curso universitário em meio a um acirrado debate acerca da distinção entre cultura popular e cultura erudita, no esforço em clarear e ampliar o conceito de cultura, não apenas como produto elitista, mas como todo empreendimento humano para construir o mundo material e o mundo simbólico. A cultura popular como expressão verdadeira do mundo segregado das massas ignoradas pela classe opressora e de legítimo valor enquanto manifestação de origem da cultura erudita, em verdade, apreendida e reelaborada pela classe dominante. Como exemplo vemos algumas óperas trazendo cenas e enredos oriundos das classes populares numa linguagem complexa e artisticamente elaborada.
Em meio a tudo que se discutia, também surgia o pensamento acerca da destruição sistemática da cultura regional e específica de grupos minoritários e sua substituição pela chamada cultura pasteurizada... o sertanejo, o indígena, o caipira, todos direcionados em formas de viver, em vocabulário e hábitos de consumo, segundo os cânones das redes televisivas, do cinema, das revistas de divulgação de fofocas, das rádios FM.
Por outro lado, havia ainda a defesa de intervenções na formação dos intelectuais orgânicos, numa perspectiva gramsciana, para o reconstrução da cultura das classes proletárias no sentido de valorização dos seus próprios interesses, assim como o acesso à cultura científico-filosófica renegada por uma escola dualista, separatista entre ensino técnico profissionalizante e ensino humanístico científico para a burguesia.
Depois, durante meu segundo curso acadêmico, o debate enfocava a questão do que é cultura na chamada pós-modernidade. É a ideia era que se tudo era cultura e tudo tinha valor, então nada tinha valor; não se podendo mais distinguir entre o que tinha valor e o que não tinha, tudo ficava no mesmo patamar, assim, como nomeia um capitulo do livro A derrota do pensamento, de Alain Finkielkraut, um par de botas vale tanto quanto Shakespeare, ou até mais...
Tudo isso criava em mim um reforço para a distinção entre o que valia e o que não valia culturalmente. Daí que não lia Paulo Coelho, não assistia novelas da Globo, não escutava música brega ou dos novos sertanejos, não participava das triviais conversas familiares e de colegas de trabalho.
Criei uma certa bolha de convivência a que poucos "privilegiados" tinham acesso. Digo "privilegiados" em tom irônico, porque em verdade eu era execrada como pernóstica, ou seja, afetada, pedante. E era mesmo, como se eu fosse me contaminar na mundanidade.
Tudo besteira, penso eu hoje. Se todo aquele pudor intelectual me forneceu uma generosa bagagem de conhecimentos e me permitiu trabalhar com conteúdos mais complexos, ao mesmo tempo também me impediu, por um longo tempo, de criar canais de comunicação com pessoas interessantes.
Nos livros de auto ajuda, os quais tem uma linguagem simplória e um arcabouço teórico frágil, hoje encontro um conteúdo importante para o resgate psicológico, emocional e espiritual para muitas pessoas, as quais não receberiam nenhum auxílio de uma literatura mais elaborada, hermética e distanciada.
As novelas da Globo geram debates que penetram as famílias e os encontros sociais, suscitando temas e reflexões que muitas vezes são impenetráveis nos círculos fechados de certas comunidades, favorecendo diminuição de preconceitos e estimulando movimentos sociais de relevância.
Na música, seja qual for o estilo, há substanciosos exemplos de reconhecimento da realidade social e de crítica feroz, muitas vezes apenas atribuída à MPB durante a ditadura militar. Como exemplo encontramos o livro de Paulo César de Araujo, Eu não sou cachorro não, num autêntico resgate da contribuição crítica da música brega no contexto pós anos 60.
Penso hoje que, o que vale, vale porque pesa enquanto significado para cada um de nós. Onde estão as soluções para nossas necessidades e as respostas ou possibilidades de reflexão para superação das dificuldades, ali estão as coisas que têm valor. Assim Machado de Assis, Tolstoi e Dostoievski são a grande literatura e trazem um universo de temáticas humanas de profundo significado, mas com certeza, não são por todas as pessoas acessadas e compreendidas, nem ao menos os livros são enfrentados na trabalhosa arte de apreensão. Há outros que fazem viagens similares em propostas menos fatigantes da chamada baixa literatura, seja Og Mandino ou o famigerado Paulo Coelho.
Hoje, para mim, não importa, é como diz o funk, "Cada um no seu quadrado".
Um benefício de tal rigor de classificação foi me permitir conhecer clássicos de literatura, recortes específicos da história sócio-cultural, política e econômica, bem como constituir panoramas conceituais sobre a filosofia e a arte. Um malefício foi me afastar de tesouros travestidos de lixo midiático.
Eu frequentei o meu primeiro curso universitário em meio a um acirrado debate acerca da distinção entre cultura popular e cultura erudita, no esforço em clarear e ampliar o conceito de cultura, não apenas como produto elitista, mas como todo empreendimento humano para construir o mundo material e o mundo simbólico. A cultura popular como expressão verdadeira do mundo segregado das massas ignoradas pela classe opressora e de legítimo valor enquanto manifestação de origem da cultura erudita, em verdade, apreendida e reelaborada pela classe dominante. Como exemplo vemos algumas óperas trazendo cenas e enredos oriundos das classes populares numa linguagem complexa e artisticamente elaborada.
Em meio a tudo que se discutia, também surgia o pensamento acerca da destruição sistemática da cultura regional e específica de grupos minoritários e sua substituição pela chamada cultura pasteurizada... o sertanejo, o indígena, o caipira, todos direcionados em formas de viver, em vocabulário e hábitos de consumo, segundo os cânones das redes televisivas, do cinema, das revistas de divulgação de fofocas, das rádios FM.
Por outro lado, havia ainda a defesa de intervenções na formação dos intelectuais orgânicos, numa perspectiva gramsciana, para o reconstrução da cultura das classes proletárias no sentido de valorização dos seus próprios interesses, assim como o acesso à cultura científico-filosófica renegada por uma escola dualista, separatista entre ensino técnico profissionalizante e ensino humanístico científico para a burguesia.
Depois, durante meu segundo curso acadêmico, o debate enfocava a questão do que é cultura na chamada pós-modernidade. É a ideia era que se tudo era cultura e tudo tinha valor, então nada tinha valor; não se podendo mais distinguir entre o que tinha valor e o que não tinha, tudo ficava no mesmo patamar, assim, como nomeia um capitulo do livro A derrota do pensamento, de Alain Finkielkraut, um par de botas vale tanto quanto Shakespeare, ou até mais...
Tudo isso criava em mim um reforço para a distinção entre o que valia e o que não valia culturalmente. Daí que não lia Paulo Coelho, não assistia novelas da Globo, não escutava música brega ou dos novos sertanejos, não participava das triviais conversas familiares e de colegas de trabalho.
Criei uma certa bolha de convivência a que poucos "privilegiados" tinham acesso. Digo "privilegiados" em tom irônico, porque em verdade eu era execrada como pernóstica, ou seja, afetada, pedante. E era mesmo, como se eu fosse me contaminar na mundanidade.
Tudo besteira, penso eu hoje. Se todo aquele pudor intelectual me forneceu uma generosa bagagem de conhecimentos e me permitiu trabalhar com conteúdos mais complexos, ao mesmo tempo também me impediu, por um longo tempo, de criar canais de comunicação com pessoas interessantes.
Nos livros de auto ajuda, os quais tem uma linguagem simplória e um arcabouço teórico frágil, hoje encontro um conteúdo importante para o resgate psicológico, emocional e espiritual para muitas pessoas, as quais não receberiam nenhum auxílio de uma literatura mais elaborada, hermética e distanciada.
As novelas da Globo geram debates que penetram as famílias e os encontros sociais, suscitando temas e reflexões que muitas vezes são impenetráveis nos círculos fechados de certas comunidades, favorecendo diminuição de preconceitos e estimulando movimentos sociais de relevância.
Na música, seja qual for o estilo, há substanciosos exemplos de reconhecimento da realidade social e de crítica feroz, muitas vezes apenas atribuída à MPB durante a ditadura militar. Como exemplo encontramos o livro de Paulo César de Araujo, Eu não sou cachorro não, num autêntico resgate da contribuição crítica da música brega no contexto pós anos 60.
Penso hoje que, o que vale, vale porque pesa enquanto significado para cada um de nós. Onde estão as soluções para nossas necessidades e as respostas ou possibilidades de reflexão para superação das dificuldades, ali estão as coisas que têm valor. Assim Machado de Assis, Tolstoi e Dostoievski são a grande literatura e trazem um universo de temáticas humanas de profundo significado, mas com certeza, não são por todas as pessoas acessadas e compreendidas, nem ao menos os livros são enfrentados na trabalhosa arte de apreensão. Há outros que fazem viagens similares em propostas menos fatigantes da chamada baixa literatura, seja Og Mandino ou o famigerado Paulo Coelho.
Hoje, para mim, não importa, é como diz o funk, "Cada um no seu quadrado".
mercoledì 7 novembre 2012
Só sei que nada sei
A diferença entre o fanático e o que tem certeza é nenhuma. Penso que ambos estão enceguecidos por uma crença absolutista sobre uma determinada verdade que para eles se apresenta como a Verdade.
Os fanáticos empreendem uma via de total obediência a cânones e dogmas elaborados por outrem e que a eles servem como muletas, óculos e anteparos para veicular no mundo, para guiar seus próprios passos e para interpretar os fenômenos do cotidiano. Os que têm certezas se cristalizam em suas próprias concepções e com elas açoitam os que delas discordam, bem como as impõem aos que partilham de suas experiências. Ambos, os fanáticos e os que têm certezas, são pessoas com as quais é impossível conversar, apresentar contra argumentos, questionar e muito menos constituir projetos em comum.
Penso que todos nós temos aspectos de uns e de outros, muitas vezes em determinados momentos de nossas histórias, seja presentemente ou no longínquo passado de outrora. Talvez tenhamos nos comprometido negativamente com a humanidade e com a história do planeta Terra justamente pela intransigência extrema com os comportamentos alheios, a imposição de nossos ideais, o julgamento sumário e a aplicação de penas duras e criadoras de tantos sofrimentos e dores nos corações e corpos de nossos irmãos de estrada.
Das grandes atrocidades às pequenas. Quem não foi tirano de um povo pode ter sido o ditador de um lar, guiando as vidas que ali se desenvolviam segundo preceitos estritos e castradores. Dos famosos e longos discursos ideologizadores até os sermões e infindas falas familiares acerca do que é certo e o que errado, sem nem ao menos escutar as perspectivas dos envolvidos, forjaram-se ambientes deletérios e malsãos. Aí estavam os que tiveram certezas.
Dos grandes templos religiosos aos grandes partidos políticos, uma mesma estratégia para formar pessoas dependentes de um sistema e escravizadas em suas mentes por regras e explicações lógicas na forma mas profundamente negadoras da experiência comum e da natureza humana. Aqui os fanáticos de toda ordem.
Vencer o fanatismo, vencer certezas, é paradoxalmente, criar uma crença, a de que não há verdades permanentes, de que há uma mutabilidade constante em todos os processos humanos e naturais, de que necessitamos muito dos outros, de que estarmos em harmonia e tentando compreender pontos diversos dos nossos, abrirá novos horizontes de comunhão onde energias fluirão com maior velocidade e intensidade, diminuindo doenças físicas e espirituais.
Viver bem será uma conquista dependente de imbuir nosso ser da famosa frase pronunciada por Sócrates: "Só sei que nada sei". Sócrates é um paradigma antifanatismo e anticertezas, um homem que por meio de seu exemplo de vida e de suas máximas, ultrapassou os séculos, tornando-se um arauto da vida plena.
Os fanáticos empreendem uma via de total obediência a cânones e dogmas elaborados por outrem e que a eles servem como muletas, óculos e anteparos para veicular no mundo, para guiar seus próprios passos e para interpretar os fenômenos do cotidiano. Os que têm certezas se cristalizam em suas próprias concepções e com elas açoitam os que delas discordam, bem como as impõem aos que partilham de suas experiências. Ambos, os fanáticos e os que têm certezas, são pessoas com as quais é impossível conversar, apresentar contra argumentos, questionar e muito menos constituir projetos em comum.
Penso que todos nós temos aspectos de uns e de outros, muitas vezes em determinados momentos de nossas histórias, seja presentemente ou no longínquo passado de outrora. Talvez tenhamos nos comprometido negativamente com a humanidade e com a história do planeta Terra justamente pela intransigência extrema com os comportamentos alheios, a imposição de nossos ideais, o julgamento sumário e a aplicação de penas duras e criadoras de tantos sofrimentos e dores nos corações e corpos de nossos irmãos de estrada.
Das grandes atrocidades às pequenas. Quem não foi tirano de um povo pode ter sido o ditador de um lar, guiando as vidas que ali se desenvolviam segundo preceitos estritos e castradores. Dos famosos e longos discursos ideologizadores até os sermões e infindas falas familiares acerca do que é certo e o que errado, sem nem ao menos escutar as perspectivas dos envolvidos, forjaram-se ambientes deletérios e malsãos. Aí estavam os que tiveram certezas.
Dos grandes templos religiosos aos grandes partidos políticos, uma mesma estratégia para formar pessoas dependentes de um sistema e escravizadas em suas mentes por regras e explicações lógicas na forma mas profundamente negadoras da experiência comum e da natureza humana. Aqui os fanáticos de toda ordem.
Vencer o fanatismo, vencer certezas, é paradoxalmente, criar uma crença, a de que não há verdades permanentes, de que há uma mutabilidade constante em todos os processos humanos e naturais, de que necessitamos muito dos outros, de que estarmos em harmonia e tentando compreender pontos diversos dos nossos, abrirá novos horizontes de comunhão onde energias fluirão com maior velocidade e intensidade, diminuindo doenças físicas e espirituais.
Viver bem será uma conquista dependente de imbuir nosso ser da famosa frase pronunciada por Sócrates: "Só sei que nada sei". Sócrates é um paradigma antifanatismo e anticertezas, um homem que por meio de seu exemplo de vida e de suas máximas, ultrapassou os séculos, tornando-se um arauto da vida plena.
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