mercoledì 5 dicembre 2012

A transição planetária e a Era de Cristal

lindas, lúcidas e inspiradas palavras abaixo e que podem ser complementadas com leituras no sítio http://somostodosum.ig.com.br/p.asp?i=13462&s=1



mercoledì 14 novembre 2012

Vale quanto pesa?

Hoje quero refletir sobre meus preconceitos intelectuais e os benefícios e os malefícios que eles me trouxeram. Com padrões muito rígidos sobre o que era importante ou não, sobre o que merecia meu tempo e atenção, sobre aquilo que me ocupava espaço mental e emocional, por um longo período do final da adolescência até um pouco mais de trinta anos, eu fazia sérias distinções entre coisas que eu reputava de alto valor e outras qualificadas como medíocres.
Um benefício de tal rigor de classificação foi me permitir conhecer clássicos de literatura, recortes específicos da história sócio-cultural, política e econômica, bem como constituir panoramas conceituais sobre a filosofia e a arte. Um malefício foi me afastar de tesouros travestidos de lixo midiático.
Eu frequentei o meu primeiro curso universitário em meio a um acirrado debate acerca da distinção entre cultura popular e cultura erudita, no esforço em clarear e ampliar o conceito de cultura, não apenas como produto elitista, mas como todo empreendimento humano para construir o mundo material e o mundo simbólico. A cultura popular como expressão verdadeira do mundo segregado das massas ignoradas pela classe opressora e de legítimo valor enquanto manifestação de origem da cultura erudita, em verdade, apreendida e reelaborada pela classe dominante. Como exemplo vemos algumas óperas trazendo cenas e enredos oriundos das classes populares numa linguagem complexa e artisticamente elaborada.
Em meio a tudo que se discutia, também surgia o pensamento acerca da destruição sistemática da cultura regional e específica de grupos minoritários e sua substituição pela chamada cultura pasteurizada... o sertanejo, o indígena, o caipira, todos direcionados em formas de viver, em vocabulário e hábitos de consumo, segundo os cânones das redes televisivas, do cinema, das revistas de divulgação de fofocas, das rádios FM.
Por outro lado, havia ainda a defesa de intervenções na formação dos intelectuais orgânicos, numa perspectiva gramsciana, para o reconstrução da cultura das classes proletárias no sentido de valorização dos seus próprios interesses, assim como o acesso à cultura científico-filosófica renegada por uma escola dualista, separatista entre ensino técnico profissionalizante e ensino humanístico científico para a burguesia.
Depois, durante meu segundo curso acadêmico, o debate enfocava a questão do que é cultura na chamada pós-modernidade. É a ideia era que se tudo era cultura e tudo tinha valor, então nada tinha valor; não se podendo mais distinguir entre o que tinha valor e o que não tinha, tudo ficava no mesmo patamar, assim, como nomeia um capitulo do livro A derrota do pensamento, de Alain Finkielkraut, um par de botas vale tanto quanto Shakespeare, ou até mais...
Tudo isso criava em mim um reforço para a distinção entre o que valia e o que não valia culturalmente. Daí que não lia Paulo Coelho, não assistia novelas da Globo, não escutava música brega ou dos novos sertanejos, não participava das triviais conversas familiares e de colegas de trabalho.
Criei uma certa bolha de convivência a que poucos "privilegiados" tinham acesso. Digo "privilegiados" em tom irônico, porque em verdade eu era execrada como pernóstica, ou seja, afetada, pedante. E era mesmo, como se eu fosse me contaminar na mundanidade.
Tudo besteira, penso eu hoje. Se todo aquele pudor intelectual me forneceu uma generosa bagagem de conhecimentos e me permitiu trabalhar com conteúdos mais complexos, ao mesmo tempo também me impediu, por um longo tempo, de criar canais de comunicação com pessoas interessantes.
Nos livros de auto ajuda, os quais tem uma linguagem simplória e um arcabouço teórico frágil, hoje encontro um conteúdo importante para o resgate psicológico, emocional e espiritual para muitas pessoas, as quais não receberiam nenhum auxílio de uma literatura mais elaborada, hermética e distanciada.
As novelas da Globo geram debates que penetram as famílias e os encontros sociais, suscitando temas e reflexões que muitas vezes são impenetráveis nos círculos fechados de certas comunidades, favorecendo diminuição de preconceitos e estimulando movimentos sociais de relevância.
Na música, seja qual for o estilo, há substanciosos exemplos de reconhecimento da realidade social e de crítica feroz, muitas vezes apenas atribuída à MPB durante a ditadura militar. Como exemplo encontramos o livro de Paulo César de Araujo, Eu não sou cachorro não, num autêntico resgate da contribuição crítica da música brega no contexto pós anos 60.
Penso hoje que, o que vale, vale porque pesa enquanto significado para cada um de nós. Onde estão as soluções para nossas necessidades e as respostas ou possibilidades de reflexão para superação das dificuldades, ali estão as coisas que têm valor. Assim Machado de Assis, Tolstoi e Dostoievski são a grande literatura e trazem um universo de temáticas humanas de profundo significado, mas com certeza, não são por todas as pessoas acessadas e compreendidas, nem ao menos os livros são enfrentados na trabalhosa arte de apreensão. Há outros que fazem viagens similares em propostas menos fatigantes da chamada baixa literatura, seja Og Mandino ou o famigerado Paulo Coelho.
Hoje, para mim, não importa, é como diz o funk, "Cada um no seu quadrado".

mercoledì 7 novembre 2012

Só sei que nada sei

A diferença entre o fanático e o que tem certeza é nenhuma. Penso que ambos estão enceguecidos por uma crença absolutista sobre uma determinada verdade que para eles se apresenta como a Verdade.
Os fanáticos empreendem uma via de total obediência a cânones e dogmas elaborados por outrem e que a eles servem como muletas, óculos e anteparos para veicular no mundo, para guiar seus próprios passos e para interpretar os fenômenos do cotidiano. Os que têm certezas se cristalizam em suas próprias concepções e com elas açoitam os que delas discordam, bem como as impõem aos que partilham de suas experiências. Ambos, os fanáticos e os que têm certezas, são pessoas com as quais é impossível conversar, apresentar contra argumentos, questionar e muito menos constituir projetos em comum.
Penso que todos nós temos aspectos de uns e de outros, muitas vezes em determinados momentos de nossas histórias, seja presentemente ou no longínquo passado de outrora. Talvez tenhamos nos comprometido negativamente com a humanidade e com a história do planeta Terra justamente pela intransigência extrema com os comportamentos alheios, a imposição de nossos ideais, o julgamento sumário e a aplicação de penas duras e criadoras de tantos sofrimentos e dores nos corações e corpos de nossos irmãos de estrada.
Das grandes atrocidades às pequenas. Quem não foi tirano de um povo pode ter sido o ditador de um lar, guiando as vidas que ali se desenvolviam segundo preceitos estritos e castradores. Dos famosos e longos discursos ideologizadores até os sermões e infindas falas familiares acerca do que é certo e o que errado, sem nem ao menos escutar as perspectivas dos envolvidos, forjaram-se ambientes deletérios e malsãos. Aí estavam os que tiveram certezas.
Dos grandes templos religiosos aos grandes partidos políticos, uma mesma estratégia para formar pessoas dependentes de um sistema e escravizadas em suas mentes por regras e explicações lógicas na forma mas profundamente negadoras da experiência comum e da natureza humana. Aqui os fanáticos de toda ordem.
Vencer o fanatismo, vencer certezas, é paradoxalmente, criar uma crença, a de que não há verdades permanentes, de que há uma mutabilidade constante em todos os processos humanos e naturais, de que necessitamos muito dos outros, de que estarmos em harmonia e tentando compreender pontos diversos dos nossos, abrirá novos horizontes de comunhão onde energias fluirão com maior velocidade e intensidade, diminuindo doenças físicas e espirituais.
Viver bem será uma conquista dependente de imbuir nosso ser da famosa frase pronunciada por Sócrates: "Só sei que nada sei". Sócrates é um paradigma antifanatismo e anticertezas, um homem que por meio de seu exemplo de vida e de suas máximas, ultrapassou os séculos, tornando-se um arauto da vida plena.

giovedì 4 ottobre 2012

Maturidade e crescimento

Uma coisa que fica muito clara na observação do comportamento das pessoas, é que idade não tem nada a ver com maturidade. Há jovens extremamente maduros e idosos muito infantis. A idade é apenas um registro civil que indica um período encarnatório iniciado e nos auxilia a acompanhar mais conscientemente a condução do nosso processo de vida até o momento de despedida da experiência corpórea terrena.
Vê-se tanta vida, tanta alegria e tanta juventude em pessoas de todas as idades, e também em variadas extrações etárias encontram-se pessoas que apenas carregam um corpo e pouco traduzem da vivacidade e do interesse em aprofundar sua experiência de vida. Dewey expressa que uma pessoa plenamente viva é uma pessoa que se reconstrói continuamente, reformula suas ideias, reconduz seus comportamentos mediante um intenso labor de auto e de co-educação. Assim há mortos e vivos que passam uns pelos outros como transeuntes do mundo estando todos aparentemente na mesma condição. A morte e a velhice são a expressão de uma vida sem cor, destituída de significados profundos, dependente de ideias fixas e de condutas reprodutivas.
A maturidade é o esforço por ser adulto. Kant fala na maioridade da razão, o esclarecimento de quem pensa por si com autonomia; e a menoridade não relacionada com a idade mas com a dependência, do deixar que o mundo e as pessoas digam quem você é, o que deve fazer, o que deve pensar, quais são suas metas.
Grande parte do trabalho das instituições é impedir a novidade, coibir a penetração de novos paradigmas, com o único escopo de garantir o controle do comportamento dos indivíduos. Quanto mais gente em estado de minoridade intelectual, mais fácil manter o sistema funcionando.
Porém, tornar-se maduro, adulto, não é coisa de pouca monta. Carlo Dorafatti diz que implica em suportar incertezas, já que não há um modelo de como existir, do que e a quem seguir. Numa perspectiva existencialista,  não há segurança de que o caminho eleito será o melhor, aliás, não há caminho melhor, só há caminhos, e eles têm que ser vividos e redirecionados no momento em que se sente e se pensa que eles esgotaram as possibilidades de nos motivar ao crescimento.
Para tanto temos que nos acolher, que nos aceitar na nossa condição de absoluta humanidade, dentro das limitações que carregamos em nossas características básicas.
Penso que um elemento profundamente vinculado com a dificuldade de crescimento, de amadurecimento, que carreamos ao longo da vida, seja a distância e a incongruência entre os discursos mentais que vamos construindo e proferindo e a forma como nos conduzimos em ações. "Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço".
Li num livro do Corrado Augias que Sêneca, estoico fervoroso defensor da coerência e da moralidade estrita ao Bem comum, reconhecia que, em última instância, ao humano se deve distinguir o discurso da ação, já que a vida real nos coloca em situações em que viver a radicalidade do pensamento seria ao menos impossível. Impossível ou não, penso que é a tarefa que está posta, de difícil execução, mas é a única que justifica nossa passagem nesse mundo, é a mudança da capacidade de discernimento; ou seja, desenvolver um esforço consciente em rever profundamente nossas crenças de todos os tipos, científicas, espirituais, sociais, políticas etc, e mediante aquilo que se vai entendendo como válido, empreender ações que as realizem, assim, vivendo a práxis de Freire, a experiência de Dewey, reconstruindo a nós em nós mesmos e, na interação com o mundo, auxiliando o mesmo a se repensar e se realizar de maneira diversa.

mercoledì 3 ottobre 2012

O que vocês fazem da meia noite às seis?

Até um pouco da metade da minha carreira, eu tinha o péssimo gosto de jogar frases de efeito sobre os alunos, sem sequer me dar conta da relevância das palavras de um professor sobre aqueles que estão sob sua orientação.
Há pouco mais de um mês recebi um e-mail de uma ex-aluna, Marineuza, uma pessoa muito especial, daquelas que a gente agradece à Deus por ter conhecido. Excelente esposa, mãe, aluna, educadora e profissional. Entre gentis palavras de carinho e de saudade, ela citou que ainda relevava um dito que à época era frequente em minhas aulas: "O que vocês fazem da meia noite às seis?", o que invariavelmente era uma resposta às reclamações quanto ao excesso de leituras e ao tempo escasso para cumpri-las.
Eu ao responder o e-mail pedi escusas, informando o quanto eu havia mudado em relação às orientações que dava em aula e que hoje eu considerava que o tempo de descanso é fundamental para o bem estar de qualquer ser humano.
Em verdade, o que sucedia, é que eu simplesmente reproduzia como professora comportamentos aprendidos com meus mestres mais rigorosos, os quais foram meus guias inconscientemente perpetuados numa série de atitudes despóticas que eu assimilei e propaguei por mais de uma década.
Realmente acredito na necessidade do cumprimento do dever e de atender às solicitações de professores, afinal meu último curso como aluna foi em 2008 e, no concernente aos deveres em disciplinas, com dificuldades ou não, eu os cumpri, abrindo mão apenas daquilo que dizia respeito somente a mim. Mesmo durante as aulas eu sempre procurei estar presente e atenta, bem como dignificar a ação dos professores com meu interesse e envolvimento.
Porém, penso que um professor deve relevar as condições de vida real dos alunos, deixando apenas de tentar fazer deles o ideal que carrega dentro de si. O cuidado em não projetar dificuldades pessoais, recalques psicológicos e vinganças sócio-econômico-culturais sobre os alunos, é de suma importância para criar um ambiente humanizado e pleno de energias salutares para despertar o desejo de estudar.
Tenho claro para mim, hoje, que meus alunos trabalhadores em dupla jornada, muitas vezes tardiamente chegando à universidade, pais de família, com filhos e marido ou esposa em casa, vítimas de desigualdades sócio-culturais e econômicas, umas tantas outras gerados em ambientes destrutivos para a auto-estima, não estão nos bancos universitários para gerarem excelências, as quais muitas vezes geram em verdade, mas ali estão para exercerem dignamente suas profissões e para darem saltos qualitativos em suas construções como pessoas humanas e humanizadas em si mesmas e nas suas projeções no mundo. Excelências acadêmicas pertencem ao mundo da ciência e há aqueles que estão em condições cognitivas e predispostos psicologicamente à uma massacrante rotina de estudos que levem à descobertas e desenvolvimento significativo do conhecimento humano. Mas eu, que não sou acadêmica de alto nível científico, penso ter contribuído, somente ao final da carreira, formando, para o mundo, pessoas que eu desejei mais felizes e mais competentes em suas áreas, mais conscientes de seus misteres.
Claro que os mais dedicados, os que abrem mão de determinadas regalias pessoais, de alguns momentos de tranquilidade e conforto, vão se sair melhor do que aqueles que levam o estudo "na flauta", porém, devemos criar estratégias mais agradáveis e gentis que atendam com radicalidade à construção do conhecimento e, ao mesmo tempo, reforcem o reconhecimento do indivíduo acerca de suas capacidades.
Nos últimos anos eu era exigente com os que levam a vida na "flauta", mas sempre dentro dos padrões gerais que estabelecia à todos, orientações sobre leituras pontuais mais significativas, uso da sala de aula para leitura e estudo compartilhado, estratégias de sínteses em mapas conceituais e atividades orais coletivas para divulgação de novos conhecimentos e suas fontes teóricas encontradas por todos e cada um. A relação imediata entre o lido, discutido e compreendido e os afazeres da profissão em educação, eram mais produtivos do que minhas exigências iniciais da carreira, as quais produziram em muitos ojeriza pelo estudo.
Diria eu agora à Marineuza, querida do meu coração, organize seu tempo para a dupla jornada de trabalho, empresa e casa, dedique-se continuamente aos estudos, mas sempre, sempre e sempre, abra espaços em sua jornada para o amor do marido e dos filhos, para a convivência na alegria e no cultivo dos pequenos prazeres à mesa, junto à natureza e nas festividades familiares e com amigos, o que ela em verdade sempre fez. A vida é, como dizia meu querido e inesquecível professor de Lógica, João José Itagyba Mariuzzo, um tripé, trabalho-lazer-estudo. Havendo organização e bom senso, há lugar para tudo, há tempo para dormir da meia noite às seis ou nos horários que nossas condições reais de vida permitam.

martedì 2 ottobre 2012

Interregno

Fiquei um bom tempo sem escrever... meu filho mais novo veio me visitar aqui na Itália, ficou comigo de maio até agosto, e com a sua partida, é como se eu ficasse dividida, com ele voltou ao Brasil um pedaço de mim e eu não senti a inspiração, o desejo, o impulso de escrever, desde então.
Mas ontem, assistindo ao programa televisivo Che tempo che fa, deparei com uma belíssima fala de Roberto Saviano, na qual ele descreveu a trajetória do pianista Michel Petrucciani, portador de uma doença incurável que lhe partiu os ossos por toda a vida, mas nunca o impediu de desenvolver e aprimorar seu talento. Com dores físicas intensas, inclusive com ossos partidos durante seus concertos, ele nunca deixou de praticar ou interrompeu uma apresentação.
Eu, com uma vida tranquila, sem problemas físicos ou psicológicos de grande monta, com tanto amor e amizade em meu entorno, me dei ao luxo de não ter inspiração. Larguei uma vida organizada e estável junto aos meus queridos do coração para viver um amor, enfrentar o desafio de uma nova vida num lugar distante e diverso, com uma rotina agradável e benfazeja e me limito a me deixar dominar por saudades... quando há tanto a partilhar... penso, refletindo agora, que é um dever compartilhar o pouco que se tenha, e o que eu tenho são minhas palavras como veículo de meus sentimentos e pensamentos. Consciente do poder da fala de Saviano sobre meu animo d'alma, desejo hoje novamente exercer esse meu pequeno mister.

mercoledì 15 agosto 2012

Inteligência e amor, tarefa de professor...


Ouvi um senhor falar com um  outro e o assunto eram profissões que os filhos e os netos deveriam seguir. Um dizia que frequentar universidade era uma besteira, afinal há tantos diplomados que aos 40 anos ainda não tem um posto de trabalho seguro e compatível com a categoria de estudo. O outro defendia a frequência acadêmica dos jovens dizendo da importância da qualificação. Assim os argumentos se sobrepunham até que o primeiro disse que "Inclusive é uma besteira estudar para ser professor, vale menos que um contador, ninguém dá nenhum valor a tal profissional." Além de desprezar o ser professor, ainda desqualificou os contadores. Detalhe: o interlocutor é de uma família de professores... e evidentemente fez a defesa da profissão.
Eu como ex-professora sou professora sempre... todos os meus estudos foram acerca da profissionalidade e da vocação do ser professor. Não tenho como negar: quero puxar a minha sardinha pra brasa depois da indignação ao acompanhar a conversa do outro lado da cerca viva.
Minha vontade era interferir, o que o resquício de educação que a minha mãe me deu impediu de fazer. Aquele senhor que defenestrava minha profissão sabe ler e escrever, é industrial e para gerir sua empresa com certeza utiliza inúmeros conceitos e técnicas não aprendidos apenas por empiria mas com orientações precisas, ainda que numa escola técnica. Seus filhos e netos também estudaram, assim como sua esposa e seus funcionários, todos são alfabetizados, contam e têm conhecimentos gerais que permitem ler jornais, acompanhar a política, calcular seus ganhos e débitos, raciocinar sobre coisas complexas que ampliam suas vidas para além dos limites da fisiologia corporal. Ah, gostaria também de saber se a empresa do dito senhor funciona sem um contador...
Sabe-se do valor que elites intelectuais sempre deram aos professores. Enquanto homens práticos e imediatistas, donos da grana, sempre os desprezaram, principalmente aos que se arvoraram em ultrapassar os limites do treinamento, da capacitação, da reciclagem (todos termos vinculados a uma mera transmissão de informações e a uma relação de total separação sujeito-objeto, professor-aluno, conhecimento de quem ensina-ignorância de quem aprende). A formação longa e cuidadosa dos filósofos da antiguidade é confrontada hoje com a vertiginosa formação em dois e três anos, com um retrocesso aos métodos de memorização e às respostas em poucas linhas e extremamente objetivas. A geração da leitura dinâmica não resiste ao fruir de uma poesia, de uma música instrumental complexa, de um filme reflexivo, de um livro denso... não consegue analisar ideologias, selecionar valores, definir caminhos alternativos. Geração fruto da educação fast food -junk food de fácil digestão, com poucos nutrientes e altamente calórica, que dá mais em menos tempo e não serve para coisa alguma. Realmente, os professores dessa geração eu também não valorizo.
De qualquer maneira, eu também não quero professores adequados ao mundo do trabalho, às prerrogativas do capital, aos interesses imediatistas dos alunos e das instituições educativas. Quero professores que interfiram nas  certezas da sociedade, que proporcionem situações de aprendizagem nas quais os alunos sejam os construtores de seus próprios conhecimentos. Quero professores e alunos indignados com a dor do mundo e sonhadores de novos caminhos.
Lembro-me de ser uma jovem e petulante professora que dizia: educação não é uma questão de amor, é apenas uma questão de cognição, de inteligência. Ora, penso hoje, uma inteligência não tem necessariamente que considerar sentimentos. Uma economia à serviço da inteligência observa uma fábrica e seus funcionários do ponto de vista matemático. O mundo para um capitalista é um lugar para obter lucros e os seres humanos são apenas alvos consumidores de produtos inúteis para sua saúde física e mental. Não entram sentimentos, conta apenas a inteligência de manipular todo o sistema para o alcance de objetivos, que, em realidade, não atendem nem ao menos aos seus criadores, que, ao final, também ficarão velhos, doentes, débeis e receberão o tratamento que dispensaram toda a vida aos seus consemelhantes, os quais aprenderam empiricamente o que é um ser humano, agora descartável. Também pessoas extremamente sentimentalóides, sem reflexão crítica, são joguetes fáceis nas mãos da mídia, da sociedade de consumo, dos políticos inescrupulosos.
Diz Henrique José de Souza "Pouco valor possui quem tem inteligência e nenhum amor; do mesmo modo que muito amor e pouca inteligência. A Lei exige que as duas conchas da balança estejam no fiel ou em perfeito equilíbrio." Pode-se dizer que a mediania aristotélica ainda vale. Nem tanto ao céu nem tanto à terra. De tudo um pouco. Um senso de raciocínio adequado sob a mira cuidadosa do sentimento. Schiller falava do equilíbrio entre razão e sensibilidade, na qual a sensibilidade seria o juiz das ações racionais. Um exemplo: a Revolução Francesa foi propulsionada por altos e dignos valores filosóficos direcionados ao Homem e, para alcançá-los, cometeu barbaridades contra a humanidade, desfigurando ética e esteticamente o horizonte que tanto almejara.
Um mundo sem professores que possam instigar o espanto grego, a perplexidade por meio da reflexão contínua, será o mundo que tantos defendem, o mundo da técnica, da vida prática, dos homens-coisas que fazem o moto perpétuo do capital, sem sentido maior  do que o de ganhar uma grana legal para ter uma casa, um carro, garantir os churrascos de domingo e o jogo de futebol domingo à tarde. Para esse mundo, professores, livros, poesia e arte não valem coisa alguma.
Professores valem muito, sim, desde que sejam semeadores de pensamentos e sentimentos propugnadores de uma humanidade melhor em cada um e para todos, forjando o desejo de um mundo onde o ganho seja útil para a vida prática e para o fruir da alma, para a alegria de sua casa e também de seus irmãos conhecidos e desconhecidos, para a evolução da espécie e para o conforto de corpos e espíritos.